PROVA, PROVÃO, CAMISA DE FORÇA DA EDUCAÇÃO

O livro  Prova, Provão, Camisa de Força da Educação*, de Hamilton Werneck, questiona  a eficácia dos sistemas de avaliação que, embora antigos na maioria dos casos, continuam sendo usados nos dias atuais. Comparando professores com alguns estereótipos de animais, demonstra a impropriedade e ineficiência de determinadas posturas de professores na hora de avaliar seus  alunos.

As analogias mostram, então, o professor macaco, que se compraz em  ridicularizar os alunos; o professor serpente-venenosa, cuja especialidade é elaborar armadilhas nos testes e provas; o professor carrasco, que em vez de ensinar, destrói a confiança e motivação dos alunos, quando não os exclui do processo educativo.

A comparação com o joão-de-barro e o castor são elogiosas: joão-de-barro é um pássaro que constrói algo e sempre em sintonia com o meio ambiente, o que o faz, por exemplo, analisar a posição em que o vento bate mais forte para decidir de que lado fazer a porta de sua casinha, de forma a proteger melhor os filhotes. Semelhante a isso, o professor joão-de-barro observa o contexto que envolve seus alunos, “sente o vento” e constrói algo em seus corações e suas mentes.

O castor, animal que enfrenta baixas temperaturas do inverno enquanto escolhe árvores e prepara diques é apontado pelo autor como exemplo de trabalho intenso, desafio a adversidades e harmonia com o meio ambiente, características também de alguns persistentes e dedicados professores que acreditam na possibilidade de transformação de realidades indesejáveis. O professor abelha é elogiado pelo trabalho dedicado e acompanhamento dos alunos, mas criticado pela mesmice e falta de criatividade nas avaliações.

O professor leão é associado à fera que assusta, ruge nos corredores e salas de aulas como se estivesse ameaçando os alunos tal  qual faziam ferozes leões que ameaçavam cristão aprisionados nos coliseus romanos, verdadeiros espetáculos circenses de atrocidade e coerção.

O pavão é usado pelo autor para caracterizar o professor que está preocupado em elitizar, que elabora questões fazendo citações pomposas de autores badalados  por “intelectuais”. Esse tipo de professor, segundo o autor, exige complexidade quando deveria recorrer a instrumentos mais simples e objetivos que privilegiassem o saber ler e escrever, a organização de idéias, capacidade de expressar-se com clareza e solidez de argumentação.

Para o autor, o professor bicho-preguiça é aquele que,  seja por cansaço decorrente de longas jornadas de trabalho ou por desgaste na vida familiar, é lento e dorme acordado, permitindo aos alunos “colarem”   durante as avaliações, além de negligenciar em várias situações.

Ao mesmo tempo em que critica, conclama à reflexão e interage com os leitores propondo-lhes exercícios de aquisição e fixação de nova mentalidade sobre o ato de educar, Werneck apresenta sugestões de como os alunos poderiam ser avaliados de forma mais construtiva e eficaz. Um dos mecanismos propostos por ele para averiguar o aprendizado é o oposto do que vem sendo feito: em vez de se considerar as respostas dos alunos, aconselha uma análise do grau de conhecimento deles por meio de perguntas feitas por eles.

Discussões e debates realizados em grupos é, segundo o autor, outra forma de o professor avaliar o quanto cada aluno assimilou ou conhece sobre o conteúdo ensinado. Avaliar pela síntese verbal, pelas sínteses grupais e observar o rendimento em tarefas seqüenciais são outras formas de medir a aprendizagem adquirida, entre outras propostas do livro, que não se opõe inteiramente ao uso de provas, mas defende que elas não sejam instrumentos coercitivos e sim, mecanismo de orientação para uma busca útil de conhecimento (ou busca por conhecimento util!) e uma forma de feedback para o professor.

Prova, Provão, Camisa de Força da Educação é obra que não pode deixar de ser lida por todos que desejem trilhar o caminho da educação e da pedagogia ou que já estejam atuando nessas áreas. Leitores que se proponham a interagir com o autor vão perceber quão difícil é lembrar-se de professores que se enquadrem nos tipos professor joão-de-barro e castor. Por outro lado, como é fácil relacionar aqueles  que marcaram nossa lembrança como carrascos, serpentes enganadoras, ferozes leões (e leoas!), pavões, abelhas e bicho-preguiça!

A favor dos pontos de vista do autor entram aspectos como a necessidade de se reconhecer que nossas escolas não têm construído cidadãos, preparado bons profissionais nem tampouco proporcionado sabedoria para obtenção daquilo que mais almejam as criaturas humanas: a felicidade.

Ao contrário, temos reproduzido modelos de ensino que interessam apenas aos detentores do poder, defensores do status quo e, sobretudo, a uma estrutura voltada para a produção de proletários resignados e maus eleitores. Por que poucos  querem ser professor ou professora nos dias de hoje? Apenas reflexo das irrisórias remunerações? Ou o modelo de formação escolar adotado e imposto aos alunos produz nesses aversão desde os primeiros anos de escola? Quem deseja imitar o que lhe desagrada?

Contra  os modelos propostos por Werneck destaca-se o fato de que a resistência humana a mudanças é algo tão arraigado que amealhar adeptos das idéias demandaria tempo enorme. Além disso, metodologia de avaliação tão subjetiva pressupõe que as pessoas agem sempre movidas pela boa fé e com honestidade, o que não é necessariamente verdadeiro.

Outra fator contrário às sugestões do autor, também decorrente do caráter subjetivo das avaliações propostas, seria a dificuldade de o Estado controlar a qualidade dos processos educativos, considerando-se que sempre haverá diferenças quantitativas e qualitativas nos níveis de dedicação, boa fé, preocupação com o bem-estar real do ser humano, empenho, capacidade de análise crítica e domínio de conteúdo, entre outros aspectos,  por parte dos professores e corpo diretivo das escolas.

Postado por Carmelita Rodrigues

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*WERNECK, Hamilton, Prova, Provão, Camisa de Força da Educação. Petrópolis (RJ): Vozes, 2002.

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4 comentários sobre “PROVA, PROVÃO, CAMISA DE FORÇA DA EDUCAÇÃO

  1. Estava pesquisando dinamica para diagnostico para o primeiro dia de aula 01/03/10 e deparei com este site e me enrriqueceu com os tipos de professores que vc é, muito bom.

  2. este livro nos faz repensar práticas que talvez sejam insuficientes para nosssos alunos… mas o ato de repessar sua prática em sala de aula requer profissionais comprometidos. Adorei o livro é um tapa na cara de muitos professores a sairem do comodismo.

  3. Passei por uma experiência com a minha filha em 2009, quando cursava o 3º Colegial. À 40 dias da formatura, foi informada de que naquela “escola” não se formaria, pois, segundo o coordenador, tinha percebido que desde o mês de abril já sabia que ela seria reprovada. Levei um susto, pois não conhecia sequer outra escola. Minha filha estudava ali naquele colégio, desde os seus dois anos de idade. Pediram para que eu a retirasse dali e a colocasse num colégio onde a média era 5,0, pois a média do colégio era 6,0 e ela não conseguiria. Eu e minha filha ficamos sem suporte. Procurei uma Delegacia de Ensino e fui instruída dos nossos direitos. Voltei à escola e disse ao coordenador, “minha filha não vai sair desta escola e irá se formar com sua turma.” Não precisei da intervenção da DE. Um detalhe, minha filha já havia prestado vestibular para Direito e passado. Hoje, ela cursa o 4º ano. É muito triste ter que levar ao conhecimento de coordenadores e professores sobre a Deliberação 11/96, pois pasmem, eles desconheciam. Minha filha fez as provas e passou sem a intervenção do Conselho de Classe. Para mim, foi uma experiência positiva, pois interessei-me pelo assunto e hoje ajudo pais de alunos a buscarem seus direitos. Aprendi que a escola é formadora de cidadãos, para uma sociedade melhor. Os livros são de uma grandeza. Vou adquirí-los, pois sou apaixonada por seres humanos sábios. A sabedoria liberta. Abraços.
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