O ciúme e a inveja

“Algumas emoções e alguns sentimentos considerados normais podem ter implicações psicopatológicas, a depender da intensidade e do contextos em que surgem e se desenvolvem. Vale ressaltar o ciúme e a inveja. O ciúme é um fenômeno emocional complexo no qual o indivíduo sente receio, medo, tristeza ou raiva diante da idéia, sensação ou certeza de que a pessoa amada gosta mais de outra pessoa (ou objeto) e poderá abandoná-lo ou preteri-lo. O ciúme de intensidade extrema, desprovido de crítica, é difícil de ser diferenciado do delírio do ciúme. A inveja, por sua vez, é a sensação de desconforto, raiva e angústia perante a constatação de que outra pessoa possui objetos, qualidades, relações que o indivíduo gostaria de ter, mas não tem. A inveja pode ser importante fonte de sofrimento em indivíduos imaturos, extremamente neuróticos e com transtorno de personalidade. Além disso, a inveja intensa pode ter efeitos devastadores nas relações interpessoas.”

 

Extraí esse trecho do livro Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais, de Paulo Dalgalarrondo (Porto Alegre: Atmed, 2000, pág.111) pela concisão e clareza que apresenta ao explicar temas tão complexos. Não posso deixar de acrescentar que na maioria das vezes essas emoções se manifestam de forma exacerbada, em forma de transtorno psico-emocional, sem que o indivíduo tenha controle sobre eles. Não depende da pessoa não sentir ciúme ou não sentir inveja. Nesses casos ocorre uma distorção cognitiva e/ou emocional que impede a significação correta da circunstância envolvida e faz a pessoa sofrer muito, mas não conseguir agir de forma diferente. É algo difícil de se explicar num espaço como este, mas, via de regra, está relacionado à constelação de complexos ou fixação em uma experiência traumática do passado, entre outras possibilidades. Em muitos casos, eliminá-los ou fazer com que não se manifestem descontroladamente exige tratamento psicoterápico, o que levará às origens dessas emoções. Tenho uma amiga que sofreu muito e teve grandes perdas devido ao ciúme patológico que sentia (principalmente do  marido, mas também de outras pessoas significativas). Ao ser aconselhada a fazer psicoterapia, por muito tempo ela deu a seguinte resposta: “eu não vou procurar tratamento psicológico porque eu sei que pra terapia funcionar eu teria que mudar o meu jeito de viver, mudar muita coisa na minha vida e eu não quero mudar nada.” Infelizmente, a despeito de todas as explicações dadas e todo incentivo a que enxergasse a distorção desse pensamento, ela permaneceu firme na negativa de buscar ajuda. A consequência foi muito ruim para ela: o quadro geral de um adoecimento muito mais amplo que a acometia (o ciúme era apenas um dos sintomas) se agravou, ela tentou o suicídio por duas vezes e foi internada outras tantas. Atualmente está bem medicada e fazendo acompanhamento psicoterápico. O prognóstico é dos melhores.

Postado por Carmelita Rodrigues, em 03.10.08

 

 

 

 

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