Alquimia, psicoterapia e nossas dificuldades concretas

“O que torna a alquimia tão valiosa para a psicoterapia é o fato de suas imagens concretizarem as experiências de transformação por que passamos na psicoterapia”. A frase é de Edwuard F. Edinger, no livro Anatomia da Psique – o Simbolismo Alquímico na Psicoterapia. É uma obra fundamental para terapeutas junguianos e todos que se proponham entender a realidade da psique. Nela, a analogia entre psicoterapia e processos alquímicos, grande pilar das descobertas de Carl Jung, é explicada minuciosamente, explorando em detalhes cada um dos sete principais processos alquímicos: calcinatio, solutio, coagulatio, sublimatio, mortificatio, separatio e coniuntio.

Jung demonstrou que o simbolismo alquímico era, em grande parte, produto da psique inconsciente. Assim, as imagens alquímicas fornecem base objetiva para abordagem de sonhos e outros materiais inconscientes. “Vi logo que a psicologia analítica coincidia de modo bastante singular com a alquimia. As experiências dos alqumistas eram, num certo sentido, as minhas próprias experiências, e o mundo deles era, num certo sentido, o meu” (Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões, ed.2005, pág. 181).

Para clarificar essa analogia de forma simplificada, facilitando a compreensão de todos que tenham interesse pelo tema, tomo por exemplo neste curto texto o processo alquímico da sublimatio. Obviamente, a leitura do livro do Edinger ampliará consideravelmente a compreensão do que tento explicar aqui, embora trate-se de leitura densa e a obra não funcione como aqueles livros de auto-ajuda.

Em alquimia, a sublimatio é a operação que transforma o material em ar por meio de sua elevação e volatilização. Originado do latin sublimis, o termo sublimação significa “elevado”. É um processo de elevação por meio do qual uma substância inferior se transforma, se eleva em movimento ascendente.

Edinger afirma que todas as imagens oníricas que lembram movimento para cima, como escadas, elevadores, alpinismo, montanhas e voar, entre outras, pertencem ao simbolismo da sublimatio; podem estar indicando uma permanência maior nesse estado e ta dificuldade para viver no plano concreto.

Ao lidar com problemas concretos, precisamos ficar “acima” deles, nos elevar. Recorremos a nossa bagagem espiritual, intelectual e vivências pessoais para enxergá-los “de cima”, e portanto, por um anglo maior, com visualização ampla de possibilidades, interligações e implicâncias.

O problema reside em permanecer “no alto”, em não descer para resolver o problema! Poetas, filósofos, intelectuais, artistas, educadores e outros pensadores realizam com freqüência esse movimento ascendente e costumam enxergar aspectos que os outros não vêem. Mas, infelizmente, dominados por intricados complexos e forças arquetípicas, desenvolvem uma dificuldade em fazer o movimento de volta, a descida para o “estado sólido”, o mundo fora das nuvens, menos belo e mais duro, pouco agradável e nada poético, mas necessário. Essa espécie de fixação no estado de sublimação costuma resultar, no mundo concreto, em sérias dificuldades financeiras e na incapacidade de formar patrimônio material, necessário à segurança e ao bem-estar no mundo atual.

Veja o que diz Edinger sobre isso (in Anatonia da Psique, 2005, pág. 136):

“A sublimatio é uma ascensão que nos eleva acima do emaranhado confinador da existência terrestre, imediata, e de suas particularidades concretas, pessoais. Quanto mais alto nos elevamos, tanto maior e mais ampla nossa perspectiva, mas, ao mesmo tempo, tanto mais distantes ficamos da vida real e tanto menor a nossa capacidade de agir sobre aquilo que percebemos. Tornam-nos expectadores magníficos, mas impotentes.”

Um amigo de grande bagagem intelectual contou-me que tem muita facilidade para visualisar as questões nas suas múltiplas abrangências e para planejar, elaborar ações ideais. E, ao mesmo tempo, enorme dificuldade para realizar as ações planejadas. No plano pessoal, provavelmente ele deve ver com clareza as causas de suas dificuldades concretas, onde erra e o que deveria fazer para livrar-se dos problemas. Mas a simples compreensão do que deve ser feito não o ajuda. Isso porque será necessário conseguir “descer” do estado de sublimação e submeter-se ao mundo real e enfrentar as necessidades concretas.

A sublimatio pode, também, ter significado de purificação. Num estado de contaminação inconsciente, matéria e espírito que foram misturados devem ser purificados pela separação: “Nesse estado impuro, o espírito deve primeiro buscar sua própria natureza e verá tudo que pertence à carne e à matéria – o concreto, o pessoal, o que é movido pelo desejo – como o inimigo a ser superado. Toda a história da evolução cultural pode ser considerada como um grande processo de sublimatio, no qual os seres humanos aprendem a ver a si mesmos e ao mundo. A filosofia estóica foi vasto esforço para ensinar os seres humanos a atingirem o alvo estóico da apathia por meio da superação das paixões que aprisionam à terra. O idealismo de Platão, bem como todos os sistemas idealistas posteriores, se esforçam por apresentar a vida em termos de formas eternas e idéias universais, com o objetivo de suplantarem a irritante sujeição humana às contingências da matéria.” (Idem, pág. 143).

Ficar acima das coisas, ver a si mesmo com objetividade é chamado em psicologia de “dissociar” e nisso reside o perigo da sublimatio. Quando levada a extremo, esse estado psíquico poderá ser patológico, isso porque a dissociação é fonte de consciência do ego, mas também causa de doença mental.

Se o movimento ascendente eterniza, conduz rumo ao divino, o movimento descendente personaliza. E o ideal é que esses dois estados se combinem, dando origem a outro processo alquímico: a circulatio. A Tábua de Esmeralda de Hermes diz o seguinte sobre a circulatio: “ela ascende da terra para o céu e desce outra vez para a terra, e recebe o poder do que está em cima e do que está em baixo. E, assim, terás a glória de todo o mundo. Desse modo, toda a treva fugirá de ti.”

No plano psicológico a circulatio é fundamental, porque promove o trânsito entre todos os aspectos do ser, incluindo suas polaridades opostas, levando ao equilíbrio de forças conflitantes.

Em psicoterapia junguiana, para lidar com a fixação em estado de sublimtio trabalha-se com sonhos e exercícios de imaginação ativa, entre outros recursos, para promover a consciência acerca dos elementos subjacentes à permanência maior nesse estado psíquico e para “esvaziar” os complexos, de modo a desarticular a dominação dessas forças sobre as ações do paciente. O psicoterapeuta vai se esforçar por desenvolver no paciente a capacidade de fazer circulatio, de realizar movimentos de ascensão e de descida, de subir para o camarote e assistir do alto, mas, em seguida, descer para o palco da própria vida e atuar.

Postado por Carmelita Rodrigues, em 04 de janeiro de 2008

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5 comentários sobre “Alquimia, psicoterapia e nossas dificuldades concretas

  1. Tenho recebido intuições sobre o processo de individuação e estudado muito Jung. Estava numa sublimatio muito grande e difícil me aterrar. Percebo que meus estados de espírito se manifestam na matéria a minha volta, fenômeno semelhante a um poltergeist. Fato que só é percebido por quem está atento aos sinais. Julgo que o que chamo de sinais Jung chamava de sincronicidade. Tenho aprendido muito com Jung, ficado atento a sonhos cada vez mais significativos. Só lamento o fato de os psicólogos junguianos serem raros. O fato é que este estudo tem me ajudado muito. Assim como a prática da alquimia. Quanto ao fato de o mundo REAL ser o espiritual, tenho minhas dúvidas. Sem “terra” ficamos sem chão. Perdoem o trocadilho.

    • É verdade, José, somos em pequeno número. Mas tende a aumentar. A formação em Psicologia Analítica exige bons mestres (e há poucos deles), por isso é cara. E tem um quê de transcendente, o que causa estranhamento em almas céticas. Enfim, as grandes ideias se propagam também conforme o zeitgeist (espírito da época). Talvez o que você denomina de sinais sejam manifestações de sincronicidade.

      O conceito junguiano de sincronicidade é bem complexo; e profundo. Parte da ideia de que o Universo é um todo e todas as coisas estão interligadas num sentido multidimensional, sem linearidade, sem se prender à humana noção de tempo e espaço. Definição estrita de sincronicidade: “é a ocorrência simultânea de um estado psíquico com um ou vários acontecimentos externos que se apresentam como paralelos significativos do estado subjetivo momentâneo”. Ou seja: algo que ocorre dentro de você está relacionado com algo fora, e às vezes, distante de você. Mas há uma definição latu senso mais complicada. De todo modo, Jung percebeu e teorizou que todas as coisas na Vida estão interligadas, as simples, do cotidiano, e as coletivas, de ampla repercussão. Um exemplo concreto de sincronicidade no cotidiano: uma pessoa está planejando iniciar uma pós-graduação; sai de casa para resolver qualquer coisa e “casualmente” encontra-se com o responsável por um Instituto de Especialização na área com a qual aquela pessoa tem afinidade. É como se fosse uma “mãozinha” do Alto para as coisas se encaminharem como devem ser encaminhadas. No sentido reducionista, pode ser o que o senso comum chama de “conspiração universal”. Mas a sincrionicidade ocorre de forma mais complexa e de difícil explicação à luz da simples racionalidade, como o que ocorre nos chamados sonhos proféticos: alguém sonha com uma tempestade avassaladora e no dia seguinte assiste na TV a notícia do tsunami na Tailândia; um avião cai e mata dezenas de pessoas e alguém sem nenhuma ligação com os passageiros da aeronave sonha com o acidente às vésperas dele. As grandes descobertas, as valiosas ideias desenvolvidas ao mesmo tempo por mais de uma pessoa em diferentes países parecem ilustrar o fenômeno da sincronicidade. Compreender isso é entender de tragédias humanas atuais como o desmatamento das florestas, a caça a animais silvestres para fins comerciais, causar ou ignorar o sofrimento dos refugiados de guerra, a tragédia no Rio Doce, em Mariana (MG), as desigualdades sociais e altas taxas de mortalidade por fome na África, como também no Nordeste brasileiro em tempos de seca. Enfim, desequilibrar a Natureza é desequilibrar a Vida; descuidar da vida do outro é descuidar da própria vida. A sincronicidade junguiana desloca o foco do Eu para o Nós, já que somos todos UM. Boa sorte na sua Jornada. Abraço.

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