Garotos mal criados

São os pais e não os “outros” a principal influência na criação dos filhos. É o que afirma o assistente social Maurício Zomignani, coordenador do Fórum da Cidadania. Crianças e adolescentes são jogados à própria sorte, orientados pelo anseio e pedido de gozo sem limites. A base da intolerância, da violência e do individualismo está, segundo ele, no anseio de “viver plenamente o presente, a concretização de suas vontades, cabendo aos outros apenas viabilizar e se subordinar a esses desejos”. Na cultura da permissividade e da falta de tempo ou preparo para educar e cuidar das crianças, adultos se rendem aos valores e interesses do comércio “confundindo gente de bem com gente de bens”. Jovens de classe média são flagrados cometendo atrocidades do tipo tocar fogo em índio ou agredir trabalhadores nos pontos de ônibus e seus pais ficam estupefatos, esquecendo-se de que os abandonaram à influência de mídias totalitárias e à lógica do ter. A seguir: o artigo completo do Maurício. 

“Foram os melhores dias da minha vida, pude fazer o que quis, na hora que quis. A menina que ficou fora de casa por três dias e cuja mãe foi à delegacia e aos jornais dando-a como desaparecida, não pode ser vista como um caso isolado, curioso ou um motivo para discussões sobre o que está certo ou errado, como em um julgamento público ou num debate sobre o lance duvidoso no futebol. Mas pode servir para uma ampla reflexão acerca da adolescência e das relações entre gerações.

A fala da jovem, que apenas enfatiza o discurso de toda a sociedade, revela-se como um pedido de gozo sem limites. Viver plenamente o presente, a concretização de suas vontades, cabendo aos outros apenas viabilizar e se subordinar a esses desejos. Esse é o anseio dominante, base da intolerância, violência, do individualismo, da ação imediata e irrefletida, marcas de nosso tempo.

Vivemos um momento de fascinação pela infância, pela tecnologia e pelo moderno que Paulo Freire chamaria de consciência mágica. É o oposto extremo à concepção de um século atrás em que não se via a criança como um ser propriamente dito, com desejos e dinâmica própria, mas como adulto em miniatura.

Na visão atual, totalmente oposta, a criança parece estar pronta. É representada em filmes e propagandas como nascida pronta, um ser completo, decidido, formado, maduro, o grande herói dos tempos modernos. Os adultos lhe dão prioridade absoluta, mas não conseguem ensinar uma relação saudável com as coisas mais prosaicas, como seriam alimentação e o vestuário. Rendem-se totalmente a valores e interesses do comércio; não conseguem valorizar o processo das conquistas, expresso por exemplo num livro, e abandonam as crianças às mídias totalitárias; entregam seus filhos (como a si mesmos) à lógica do TER , confundindo gente de bem com gente de bens. E depois surpreendem-se com seus filhos e com o s alheios, como se estes surgissem de explosões sem pé nem cabeça, fruto da televisão e das más influências. Mas se todos os erros de nossos filhos forem fruto das más influências, teremos de concluir que para os filhos de alguém as más influências são os nossos , e assumiremos, completamente, que nós não somos influência alguma. Certos estão os pais quando chamam seus filhos de mal criados.

Nossos filhos não são heróis nem vilões. E quem cria filhos fixados em uma idéia ou outra não os vê de verdade. Paga o alto preço de não ser reconhecido por eles porque primeiramente não os reconheceu. Nossas crianças e nossos jovens são seres com desejos e necessidades – a maior deles é serem reconhecidos e amados como são, não como os imaginamos. Eles existem como seres, mas estão em desenvolvimento, e nesse processo precisam de apoio, de empurrões e de padrões a serem seguidos, referências a serem superadas, ou seja, eles precisam de nós – e menos de nossos presentes materiais!

*Maurício de A. Zomignani – Assistente Social e

coordenador do Fórum da Cidadania.

Artigo extraído da revista Viver Psicologia, dezembro/2003.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s