Tarso, um substantivo próprio que dá nome a um personagem da novela da Globo Caminho das Índias, está sendo usado como adjetivo. As pessoas, de modo particular osadolescentes[bb], usam-no para dizer que alguém é louco ou que tem surtos. Nem sei se as pessoas sabem ao certo o que são surtos, mas é uma expressão já do senso comum. Fui pesquisar sobre o assunto e encontrei o blog do ator que vive o personagem, o Bruno Gagliasso. Lá, no blog, encontrei um texto explicativo sobre essa psicopatologia, da psiquiatra Patrícia Schmidt. Que, segundo Bruno Galiasso, foi usado na oficina[bb]de atores para selecionar o elenco de apoio, ainda antes da novela[bb] começar.

“Nesse pequeno texto tentarei falar sobre esquizofrenia de uma forma bem diferente das usuais explicações científicas. Antes de tudo esquizofrenia é doença e sofrimento. Depois de tudo é um fascinante universo. É hoje encarada não como uma doença única, mas sim como um grupo de patologias. Não escolhe classes sociais e grupos humanos. Só é possível entender o universo das esquizofrenias com muita empatia em relação às emoções e vivências do sujeito em sofrimento psicótico.

Imagine-se com aquela sensação de medo que surge quando paramos no sinal de madrugada[bb], nas ruas do violento e lindo Rio de Janeiro[bb]. Agora siga imaginando-se com essa sensação durante todos os minutos do seu dia. Imagine-se com aquela vergonha que sentimos quando somos flagrados, por exemplo, com o dente sujo naquela importante leitura de texto logo após o almoço[bb]. Agora siga imaginando-se com essa sensação a todo momento, com a certeza de que as pessoas[bb] o observam, podem ver tudo o que você faz e monitoram todos os seus atos. Imagine-se ouvindo alguém chamar o seu nome, olhando em volta e não vendo ninguém como acontece conosco de vez em quando. Siga imaginado que você continuará ouvindo vozes, todo dia, hora e minuto e que você não sabe de onde elas vêm. Agora imagine-se naquele evento chato pensando no quanto você gostaria de estar em casa, debaixo das cobertas e não ali aturando o nada inteligente e piadista sem graça do diretor da sua companhia teatral. Agora imagine acreditar que todos os demais, inclusive seu diretor, podem ler seus pensamentos!

Essas sensações de nosso dia a dia, vividas numa intensidade muito maior, são algumas das sensações experenciadas pelo sujeito que sofre com a doença mental chamada esquizofrenia[bb]. A doença se caracteriza classicamente por uma coleção de sintomas, tais como alterações do pensamento, alucinações (auditivas, visuais, olfativas, mais raramente e outras) delírios, perda de contato com a realidade, podendo causar uma quebra radical do laço social. A sua prevalência atinge 1% da população mundial, manifestando-se habitualmente entre os 15 e os 25 anos, nos homens e nas mulheres, podendo igualmente ocorrer na infância ou na meia-idade.

As esquizofrenias têm tratamento e o sujeito pode se recuperar, muito embora cura no sentido estrito da medicina ainda não seja possível. Temos o controle da doença e o tratamento[bb] visa empoderar o sujeito psicótico para que ele possa lidar melhor com seus sintomas. Medicação, psicoterapia[bb], oficinas terapêuticas, projetos de trabalho e geração de renda, música, arte e lazer[bb] são alguns dos elementos que se preconiza hoje para o atendimento das pessoas com esquizofrenia. Desde a década de 80, o Brasil realiza a Reforma Psiquiátrica que nega a exclusão determinada pelos hospícios e propõe o tratamento dos doentes mentais na comunidade, através dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Desejamos além de proporcionar um tratamento intensivo e de qualidade, fazer uma intervenção na cultura, para que um dia possamos enfraquecer o ainda forte estigma contra o doente mental.

Como diz um amigo artista e psiquiatra – Lula Vanderlei – parafraseando Caetano Veloso[bb]: Se de perto ninguém é normal, de perto ninguém também é louco todo dia. O louco pode ficar dentro da aceita normalidade. Pode trabalhar, casar, namorar, dançar, cantar. Muitos loucos são artistas e grandes artistas. Em tratamento, a crise aguda psicótica tende a ser melhor manejada e a remitir mais rapidamente.  Cada caso é um caso, mas todo psicótico é um cidadão e tem os mesmos direitos e deveres de todos nós.

Para finalizar, esquizofrenia é doença mental, sofrimento, esfacelamento, recuperação, encanto e fascínio. Cabe superarmos nossos preconceitos e assim garantir ao louco a chance de mostrar suas potencialidades e ocupar o seu lugar na sociedade.”

Patrícia Schmid – Psiquiatra

Esquizofrenia é um tipo de psicose[bb], nome científico da “loucura”. Aprendemos na faculdade[bb] uma analogia para diferenciar psicose de neurose. Imagine alguém que sai de casa e quando volta encontra a casa fechada. Esse alguém fica do lado de fora. Agora imagine alguém que sai de casa e quando volta encontra sua casa arrombada e com tudo que estava dentro quebrado. Isso é psicose. Na neurose[bb] a pessoa não perde o senso de realidade – sua conexão com o mudo não se quebra. Já na esquizofrenia, esse elo está quebrado e ele vive como se estivesse em outro mundo. Outra bela analogia que aprendi: a neurose é como um vaso trincado. A psicose é como um vaso que caiu, esfacelou-se e o dono tenta montar os pedaços. Pode até conseguir, mas um ou outro pedacinho voou pra longe e não é encontrado ou mesmo que ache todas as partes que se partiram, sempre haverá o vinco da “cola” onde foi remendado. Trabalhei numa clínica para pessoas com transtornos mentais e lá havia um homem de alta estatura, forte e de voz gutural que às vezes entrava no salão gritando: “Eles estão querendo chupar o meu cérrebro!” No mprimeiro contato isso soava como algo assustador. Com o tempo, nos acostumávamos com essa e outras manifestações semelhantes e passávamos a ouvir coisas assim apenas como mais uma das diferentes manifestações do ser humano dentro de suas singularidades. Conviver com os chamados loucos tem algo de mágico. É uma experiência semelhante a um portal que abre nossa mente para outros “mundos”, outras formas de estar no mundo, alternativa diferente de existência. É fascinante, acreditem, mas exige que você esteja muito “centrado”, emocionalmente equilibrado, e que esteja aberto para livrar-se de preconceitos.

Obra clássica de Carl Gustav Jung, A Prática da Psicoterapia* é um livro de indiscutível relevância, sobretudo para praticantes da Psicologia Clínica, mas também para todos que desejam aprofundar conhecimentos sobre psicoterapia e entender o pensamento de Jung. Para melhor exemplificar o conteúdo do livro, transcrevo alguns tópicos:

Aquilo que não está claro para nós, porque não o queremos reconhecer em nós mesmos, nos leva a impedir que se torne consciente no paciente, naturalmente, em detrimento dele.” Pág.06

O psicoterapeuta está arriscado a contrair infecções psíquicas não menos perigosas [do que as contraídas por médicos em hospitais]. Assim sendo, por um lado corre o perigo de envolver-se nas neuroses de seus pacientes; por outro, ao procurar proteger-se contra a influência destes sobre si, pode privar-se do exercício do efeito terapêutico.” Pág. 16.

A causa da neurose é a discrepância entre a atitude consciente e a tendência inconsciente.” Pág.17

A fantasia é a atividade espontânea da alma, que sempre irrompe quando a inibição provocada pela consciência diminui ou cessa por completo, como no sono.Durante o sono, a fantasia manifesta-se em forma de sonho, mas mesmo acordados continuamos sonhando subliminarmente, e isso principalmente devido aos complexos recalcados ou de algum modo inconscientes.” Pág. 54

A retirada da projeção só pode e deve ser retirada gradativamente.” Pág. 96

Como pode ser visto nos trechos citados, o livro contém indicações quanto aos fundamentos e princípios que orientam a concepção prática de Jung sobre psicoterapia e estão reunidos nos seguintes tópicos: princípios básicos da prática da psicoterapia; o que é psicoterapia; alguns aspectos da psicoterapia moderna; os objetivos da psicoterapia; os problemas da psicoterapia moderna; psicoterapia e visão do mundo; medicina e psicoterapia; psicoterapia e atualidade e questões básicas da psicoterapia.

O livro contém temas abordados por Jung em conferências e é o décimo sexto volume das obras completas de Jung.

*Editora Vozes, 9ª edição, RJ, 2004

Postado por Carmelita Rodrigues, em 13.01.08

A síndrome do pânico é analisada por diferentes abordagens psicológicas, havendo explicações diversas para as causas subjacentes desse transtorno e propostas diferentes de intervenções psicoterápicas. Apesar das diferenças, existem aspectos cujas explicações convergem para o mesmo ponto central, embora sejam adotados termos ou expressões diferentes para mencioná-los. É o caso, por exemplo, da concepção de pânico como neurose, predominante tanto na psicanálise quanto na Gestalt-terapia e na abordagem junguiana. Psicanalistas e gestaltistas concordam que as neuroses têm origem em traumas, ainda que os teóricos da Gestalt considerem essas experiências dolorosas como situações inacabadas produzidas por interrupções do contato. Se Perls afirma que a neurose é um estado de desequilíbrio decorrente do conflito entre os imperativos pessoais e os do meio, Freud fala em contenção das pulsões libidinais. Ora, contemos nossos instintos por força de imposições externas, ainda que indiretamente, i.e., as deliberações podem ter origem interna, mas serão reflexo de aspectos introjetados do meio. A experiência de desamparo, real ou imaginário, como origem das neuroses é outro ponto de concordância entre gestaltistas e psicanalistas. Segundo Pereira (2003), os relatórios clínicos de Freud mostram a associação entre pânico (ataques ou acessos de angústia) e experiências de desamparo, como se pode constatar no trecho reproduzido por Pereira: “o desencadeamento dos acessos é relacionado a acontecimentos de separação brutal de seres muito próximos ou de perturbações em situações que até então representavam segurança e proteção para o sujeito” (p.71). De forma similar, quando o indivíduo se defronta com uma situação de impasse existencial, na qual ele tem que lidar com algo que é ao mesmo tempo intolerável e indispensável, a introjeção torna-se a única alternativa viável, uma vez que é imposto pelo outro (embora isto seja intolerável) para evitar a experiência de ser desamparado por esse outro, visto pelo indivíduo como sendo indispensável à sua sobrevivência. Desse modo, o medo do desamparo pode fazer com que o indivíduo utilize várias formas de interrupção do contato, sempre que este contato possa significar possibilidade de frustrar as expectativas do outro e de ser desamparado por este. Quando os psicanalistas propõem intervenções terapêuticas voltadas para a reconstrução do ego, estão defendendo o mesmo que os gestalt-terapeutas quando estes trabalham pela integração do Self. Se para a Psicanálise a incumbência do terapeuta é ajudar o paciente a relembrar, recuperar e reintegrar materiais inconscientes de forma que a vida atual dele possa ser satisfatória, como explica Fadiman (1986), para os gestalt-terapeutas o objetivo é o mesmo; o método é que é diferente. Psicanálise e Gestalt-terapia divergem quanto à ênfase dada ao passado: a Gestalt-terapia enfatiza o aqui e agora, importando-se com eventos do passado apenas quando estes ainda são presentes, quando continuam interferindo nas emoções, percepções e ações do indivíduo, perturbando a formação de novas figuras. Para os gestalt-terapeutas, mais importante do que a compreensão teórica das causas da neurose é a conscientização do indivíduo (o estar aware) do que ele está vivendo, experienciando no presente; de como ele está percebendo os fatos. Um dos reflexos disso é o fato do indivíduo responsabilizar-se mais pelos seus estados emocionais, comportamentos e/ou suas dificuldades adaptativas no presente, podendo atuar de forma diferente e mais eficiente no sentido de modificar o campo organismo-meio. Fadiman (1986) esclarece que boa parte do trabalho de Fritz Perls, o criador da Gestalt-terapia, foi dedicado ao que ele próprio considerava uma extensão do trabalho de Freud, uma revisão da teoria psicanalítica. Em razão disso, as duas abordagens contêm muitos pontos em comum e muitas divergências entre si. As divergências entre Perls e Freud seriam mais relacionadas aos métodos de tratamento psicoterápico do que às exposições teóricas acerca da importância das motivações inconscientes, da dinâmica da personalidade ou dos padrões de relacionamentos humanos, por exemplo. Perls achava que a falta de visão holística sobre o funcionamento do organismo humano limitava o trabalho de Freud. Ao contrário de Freud, Perls dava ênfase particular ao material óbvio (figura), em detrimento dos conteúdos reprimidos (fundo). Da mesma forma, Perls acreditava que a consciência do como a pessoa se comporta a cada momento é mais importante para a autocompreensão e para promover a mudança do que a compreensão do porquê de determinado comportamento (idem). A teoria dos instintos e da libido é outra divergência de Perls em relação à abordagem freudiana:Quando Perls começou a formular sua própria teoria do que Freud denominava instinto, ele sugeriu que um organismo tem miríades de necessidades que são sentidas quando o equilíbrio psicológico e/ou fisiológico é perturbado. Assim, como há milhares de tipos de distúrbio do equilíbrio, há milhares de tipos de instintos que aparecem como meios pelos quais o organismo tenta reequilibrar-se. Na visão de Perls, então, nenhum instinto (por exemplo: sexo ou agressão) é ‘básico’; todas as necessidades são expressões diretas de instintos do organismo (idem, p.128). Ainda segundo Fadiman (op. cit.), Perls discordava também da afirmação de Freud de que a importante tarefa do terapeuta era a liberação de repressões, após a qual o trabalho e a assimilação do material ocorreriam naturalmente. Ao contrário disso, Perls apregoava que, pelo simples fato de existirem situações inacabadas, as pessoas têm muito material de fácil acesso ao trabalho terapêutico; que a tarefa importante e de difícil realização é a assimilação desse material, o mastigar, digerir e integrar traços, hábitos, atitudes e modelos de comportamento previamente introjetados. De forma resumida, Fadiman (1986) apresenta alguns correlatos ente a teoria psicanalítica e a abordagem gestáltica, encontrados em pares de conceitos gerais: Catexia de Freud e figura-fundo de Perls; libido de Freud e excitação básica de Perls; associação livre de Freud e continuum de consciência de Perls; consciência (consciousness) de Freud e conscientização (awareness) de Perls; o enfoque de Freud na resistência e o enfoque de Perls na fuga da conscientização; a compulsão à repetição de Freud e as situações inacabadas de Perls; a regressão de Freud e o retraimento (do meio ambiente) de Perls; o terapeuta que permite e encoraja a transferência, de Freud, e o terapeuta que é um “habilidoso frustrador”, de Perls; a configuração neurótica de defesa contra impulsos, de Freud, e a formação rígida das gestalten, de Perls; a projeção transferencial de Freud e a projeção de Perls… e assim por diante. (p.129). Apesar de discordarem em pontos fundamentais, Freud e Carl Jung foram amigos íntimos de 1907 a 1912. O trabalho de Freud influenciou fortemente a teoria de Jung: a publicação de A interpretação de Sonhos, de Freud, inspirou Jung na sua análise sobre os símbolos oníricos e as teorias freudianas sobre os processos inconscientes serviram para Jung considerar a possibilidade de analisar sistematicamente a dinâmica do funcionamento mental, indo além da classificação superficial vigente na psiquiatria da época. Essa influência pode ser percebida também na concepção junguiana de inconsciente pessoal, semelhante ao inconsciente da teoria psicanalítica (FADIMAN, 1986). Segundo Moacir Ribeiro (informação verbal)4, Freud considera os símbolos representações mentais das pessoas, relacionados a convenções e que podem ser reunidos em uma lista de quantidade limitada. Jung, por sua vez, defende que o símbolo tem capacidade inesgotável de representações, i.é, não há número limitado de símbolos por que eles são a linguagem, a fala da alma, inclusive para se dizer o que não pode ser dito com palavras. Para Jung, um símbolo é universal, diferentemente dos sinais, cujo significado depende do contexto cultural no qual esteja inserido ou de onde decorra. Assim, nos comunicamos no nível consciente por meio de signos. Já o inconsciente, utiliza símbolos para se expressar, por meio de imagens, idéias ou sentimentos. Símbolos, na concepção junguiana, têm origem nos arquétipos e vêm antes do indivíduo. Um símbolo se corporifica na experiência individual, mas transcende a individualidade dos sujeitos. Os mitos são conjuntos de símbolos ordenados numa história com começo, meio e fim. Para Jung, mito é uma verdade eterna que a consciência não compreende, por ser utilizada uma linguagem arcaica (idem).Ainda de acordo com Moacir Rodrigues, para Jung a arte é uma condensação inconsciente de símbolos feita pelo artista, que tem capacidade de entrar no inconsciente (ser temporariamente psicótico) e trazer para fora, em forma de imagem ou sons, o que vê. O artista faz essa viagem e volta em seguida à normalidade, ao estado de consciência, permanecendo normal, o que o diferencia dos psicóticos. A exemplo dos símbolos, os sonhos são outro ponto de divergências entre Freud e Jung. Para Freud, sonho é uma manifestação do inconsciente e contém conteúdos latentes (restos diurnos, vivências correntes e resíduos de sofrimento) e conteúdos manifestos (realização de desejo predominantemente em imagens e sensações). Para Jung, sonho é isso, mas não só isso; é também comunicação do inconsciente com o consciente, uma fala simbólica que pode ser sim um desejo reprimido, mas pode também ser desejo não reprimido. O que sonhamos hoje pode ser decorrente dos mitos de nossos antepassados (idem). Freud fala de sonhos pessoais, oriundos do inconsciente pessoal e Jung fala de grandes sonhos, provenientes do inconsciente coletivo e dos arquétipos. Para os psicanalistas é preciso que alguém interprete o sonho, pois as defesas pessoais impedem que a pessoa entenda seus próprios sonhos. Para os junguianos é exatamente o contrário: somente quem sonha é capaz de compreender o significado do próprio sonho. E independentemente de haver interpretação ou não, só a ocorrência do sonho já tem em si um efeito de higiene psíquica que leva à homeostase, ao equilíbrio psíquico. Nisso ambos concordam, que o sonho é a busca da homeostase psíquica. As abordagens junguiana e gestáltica têm concepções semelhantes acerca dos sonhos: mais importante do que a interpretação cognitiva é o ato de experienciar o material onírico. Na análise de sonhos, Jung fazia o paciente voltar às imagens do sonho e lhe perguntava: “o que dizia o sonho?” (FADIMAN, 1986). O trabalho com sonhos da Gestalt-terapia é idêntico: a pessoa é instruída a imaginar-se novamente no momento mais marcante do sonho e reviver as impressões e emoções, orientando-se como se estivesse no presente. Perls sugere que os sonhos são mensagens existenciais que podem nos ajudar a compreender quais as situações inacabadas que trazemos conosco (id.). A terapia cognitiva surgiu na década de 60 e se desenvolveu em um cenário de predominância da psicanálise e do behaviorismo. Historicamente, sabe-se que um novo movimento sempre busca algo a quê se opor ou ao qual possa acrescentar elementos. Segundo Knapp (2004), uma das divergências entre a TCC e a psicanálise é o fato de que os terapeutas cognitivistas não interpretam os conteúdos levados às consultas. Em vez de interpretados, eles são elaborados em conjunto com o paciente, num trabalho de identificação, exame e correção das distorções do pensamento que causam sofrimento emocional ao paciente. Outra diferença: na psicanálise a tarefa do terapeuta é expor, explorar e isolar os instintos componentes que foram negados ou distorcidos pelo paciente e a reformulação ou a adoção de hábitos novos e mais saudáveis ocorrem sem a intromissão do terapeuta. (FADIMAM, 1986). Contrariamente ao behaviorismo, a TCC não enfatiza o determinismo ambiental; propõe que a testagem da realidade seja dirigida ao pensamento do paciente, e não ao seu comportamento encoberto. (Idem).Beck e colaboradores (1987, in KNAPP, 2004) descrevem dois tipos de personalidade influenciadas de forma diferente no surgimento dos transtornos emocionais: personalidade tipo sociotrópico e tipo autônomo. As pessoas do tipo sociotrópico valorizam relações interpessoais íntimas e são dependentes de gratificações sociais, com ênfase em ser aceito e amado pelos outros. As de orientação autônoma refletem alto investimento em independência pessoal, obtendo satisfação na liberdade de escolha, conquistas e aquisições pessoais. Beck afirma que um indivíduo com boa saúde mental reflete uma combinação equilibrada dos dois tipos de personalidade, uma vez que os indivíduos altamente sociotrópicos ou altamente autônomos apresentam igual vulnerabilidade para problemas emocionais. Essa classificação cognitivista dos indivíduos como sociotrópicos ou autônomos é semelhante ao modelo junguiano de introversão e extroversão. Knapp (2004) esclarece que a Terapia Comportamental trabalha três níveis de cognição: pensamentos automáticos (PA), pressupostos subjacentes e crenças nucleares. Essas últimas vão sendo construídas e formadas desde as primeiras experiências de vida e se fortalecendo com o decorrer dos anos; moldam a percepção e a interpretação dos eventos, modelando o jeito psicológico de ser de cada um. Para esse autor, em não havendo correção das crenças nucleares disfuncionais, elas se cristalizam como verdades absolutas, inclusive em se tratando de juízo de valor acerca das outras pessoas e do mundo, coisas como supor que as pessoas são traiçoeiras, desleais ou que o mundo é ameaçador. As crenças nucleares disfuncionais são absolutistas, generalizadas e cristalizadas. Essa descrição do que Knapp considera uma estrutura do pensamento lembra o mecanismo de defesa denominado pela Gestalt-terapia de fixação. Outro aspecto da TCC que possui correspondente na Gestalt-terapia é a ênfase no presente. Para Knapp (2004), a TCC presta atenção ao passado apenas o necessário. Conhecer as experiências prévias do paciente pode revelar a fundação dos problemas, mas é possível resolver a fonte deles focalizando primariamente o presente. “O foco não é tanto o que foi, mas o que é e o que mantém ou reforça o comportamento disfuncional” (P.38.). Semelhante a isso, a Gestalt apregoa que mais importante do que os porquês (localizados no passado) é a forma como um evento passado se manifestação no presente, como ele é sentido e vivenciado pelo indivíduo no aqui e agora.A descoberta-guiada, nos moldes do questionamento socrático, é realizada também tanto por gestaltistas quanto por junguianos. Consiste em o terapeuta fazer perguntas com respostas abertas de forma que o paciente entenda o problema e explore possíveis soluções (idem). Do mesmo modo, quando os terapeutas cognitivos recorrem à exposição interoceptiva estão fazendo algo semelhante ao que fazem os gestaltistas no psicodrama imaginário, quando esses orientam o paciente a entrar em contato com a vivência temida, a reviver a situação ameaçadora da qual desejam fugir. É, ainda semelhante à proposta dos junguianos de integração das sombras. No caso específico do pânico, a Gestalt-terapia propõe que em vez do paciente negar, rejeitar ou tentar evitar os sintomas, deve acolhê-los, senti-los em profundidade, entrar em contato eles (em condições ambientais seguras) para que, em seguida ou concomitantemente, possa se dar conta de que tem controle sobre eles. A pessoa precisa compreender que a taquicardia não o levará à morte e que essa alteração cardíaca diminui na medida em que ela deixa de temê-la. Ao perceber-se capaz de enfrentar os ataques de pânico, com essa postura de passividade controlada, a pessoa percebe também que eles diminuem de intensidade e freqüência. Os treinos de assertividade, técnica da Comportamental usada na TCC, destinam-se a ensinar ao paciente formas socialmente adequadas de expressão verbal e motora. Inclui a expressão de afetos e opiniões de modo direto, a reivindicação de tratamento justo, igualitário e livre de demandas abusivas. Segundo Rangé (2001), o princípio teórico é o de que comportamentos de preocupação e medo são aprendidos a partir da interação com modelos autoritários, o que inibiria as respostas espontâneas e naturais da pessoa, que deixa de expressar suas emoções, evita contatos visuais diretos e teme expor opiniões próprias. Isso é o mesmo que fazem os gestal-terapeutas, embora com metodologia diferente, ao promoverem a reflexão do cliente quanto ao que ele introjetou de comandos, opiniões e limitações vindas dos outros; é promover a reflexão sobre quem é ele e o que ele realmente quer, o que tem origem externa e foi engolido sem mastigação, impedindo a satisfação das próprias necessidades. A técnica da cadeira vazia, da Gestalt-terapia, na TCC ganha o nome de role-play racional-emocional. Inicialmente, enquanto o terapeuta dramatiza a parte “emocional”, o paciente representa a parte “racional” da sua mente, sendo orientado a argumentar contra seu pensamento negativo. Ambos trocam de papel na etapa seguinte do experimento para que o paciente desenvolva a capacidade de se distanciar emocionalmente das questões em foco e aprenda a dar respostas não-emocionais às suas crenças (KNAPP, 2004). O objetivo da técnica nas duas abordagens é o mesmo: fazer com que o paciente, ao transcender a mera compreensão intelectual dos eventos, possa desligar-se emocional e mentalmente deles a partir da re-significação que lhes é atribuída.

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