Uma manhã, como de hábito, uma mulher entrou em seu carro para ir trabalhar. Durante o trajeto de alguns quilômetros, sua imaginação começou a elaborar uma grande aventura. Via-se como uma mulher simples, vivendo em épocas passadas, entre guerras e cruzadas. Tornou-se heroína, salvando seu povo por meio de lutas e do sacrifício; depois, encontrou-se com um príncipe nobre e forte, que por ela se apaixonou.
Com a mente consciente assim totalmente ocupada, ela dirigiu o carro por várias ruas, passou por semáforos, sinalizou corretamente nos momentos certos e chegou em segurança ao estacionamento do seu local de trabalho. Voltando à realidade, percebeu que não era capaz de se lembrar do trajeto percorrido. Não se lembrava de um único cruzamento, de uma única entrada à direita ou à esquerda. Assustada, perguntou-se: “Como pude percorrer todo esse trajeto sem me dar conta? Onde estava minha mente? Quem dirigia enquanto eu sonhava? Mas fatos semelhantes já haviam acontecido antes, de forma que mudou o rumo dos eus pensamentos e entrou no escritório.
Diante de sua mesa de trabalho começou a planejar as atividades do dia, quando foi interrompida por um colega que entrou furiosamente em seu escritório, atirando um memorando que ela fizera circular e vociferando por causa de detalhes do mesmo com os quais não concordava. Ela ficou pasma! A raiva do colega era francamente desproporcional às dimensões dos detalhes! Que tinha dado nele?
O rapaz, por sua vez, escutando a própria voz alterada, percebeu que estava fazendo uma tempestade em copo d’água. Confuso, murmurou uma desculpa e saiu. Chegando a sua sala, perguntou-se: Que deu em mim? De onde veio isso? Em geral não faço estardalhaço por tão pouco. Simplesmente não era eu!”
Sentiu que fervia de raiva e que, apesar nada ter a ver com o tal memorando, ainda assim a fúria se abatera sobre ele por causa daqueles pequenos detalhes. De onde vinha aquela raiva toda, exatamente, não sabia.
Se essas duas pessoas tivessem parado para pensar, talvez tivessem percebido que estavam sentindo a presença do inconsciente em suas vidas naquela manhã. De vários modos, nas idas e vindas do dia-a-dia, o inconsciente age sobre nós e através de nós. Às vezes, o inconsciente trabalha lado a lado com a mente consciente e assume o controle quando esta está concentrada em outra coisa. (…)
Outras vezes, o inconsciente elabora fantasias tão cheias de símbolos e imagens vivas que acaba por envolver totalmente a mente consciente, mantendo nossa atenção presa por um bom lapso de tempo. Fantasias de aventura, perigo, sacrifício heróico e amor. São exemplos primários de como o inconsciente invade a mente consciente e procura manifestar-se – por meio da imaginação, usando a linguagem simbólica de imagens carregadas de emoções.
Outra forma de sentirmos o inconsciente é por meio de uma onda emocional repentina, a euforia inexplicada ou a raiva irracional que invadem a mente consciente e a dominam. Essa onda emocional não faz sentido para a mente consciente, pois ela não a criou. (…)
O conceito de inconsciente é obtido pela simples observação da vida diária. Há um material contido em nossa mente do qual não nos apercebemos a maior parte do tempo. Algumas vezes nos surpreendemos com uma recordação, uma associação feliz, um ideal, uma crença que inesperadamente surge de um lugar desconhecido. Sabíamos que o carregávamos em algum lugar dentro de nós, desde há muito – mas onde? Numa parte desconhecida da psique, além dos limites da mente consciente.
O inconsciente é um universo maravilhoso, composto de energias invisíveis, forças, formas de inteligência – até personalidades distintas – que não são percebidas mas que vivem dentro de nós. Seu domínio é muito maior do que supomos; algo com vida própria e completa, toda sua, que corre paralelamente à vida comum do nosso dia-a-dia. O inconsciente é a fonte secreta de muito do que entendemos como nossos pensamentos, nossas emoções e comportamentos. Influencia-nos de forma poderosa, por não suspeitarmos de sua existência.
(…)
Algumas vezes, essas personalidades escondidas são embaraçosas e violentas e nos sentimos humilhados quando se revelam. Outras vezes, descobrimos que temos qualidades boas e poderes que desconhecíamos. Nos valemos de fontes escondidas que nos permitem fazer coisas que normalmente não faríamos, como por exemplo, nos expressarmos com clareza e inteligência inusitadas, comportando-nos com sabedoria, generosidade e compreensão, a ponto de nos surpreendermos: “Sou diferente do que pensava; tenho qualidades – tanto positivas quanto negativas – que não conhecia em mim.” Essas qualidades vivem no inconsciente, onde estão “longe dos olhos, longe do coração.
Somos muito mais do que o “eu” que conhecemos. A mente consciente só consegue concentrar-se, de cada vez, em uma única área limitada do nosso ser total. Apesar de todo o esforço par ao autoconhecimento, só uma pequena porção do vasto sistema de energia do inconsciente consegue ser incorporada à mente consciente ou atuar no nível consciente. Então temos de aprender como ir ao inconsciente e como ser receptivos às suas mensagens: é a única maneira de conhecermos as partes desconhecidas de nós mesmos.
Abordando o inconsciente, voluntária ou involuntariamente – O inconsciente manifesta-se por meio de linguagem simbólica. Não é somente por um comportamento involuntário ou compulsivo que sentimos o inconsciente. Ele dispõe de dois caminhos naturais para estabelecer uma ligação e conversar com a mente consciente: um deles é o sonho; o outro, a imaginação. Ambos são canais de comunicação altamente sensíveis eu a psique desenvolveu para que os níveis consciente e inconsciente possam conversar entre si e trabalhar em conjunto.
O trecho acima, retirado do livro Imaginação Ativa – Inner Work,de Robert A. Johnson, exemplifica parcialmente o conteúdo do livro, importante instrumento de compreensão de intervenções psicológicas da abordagem junguiana. Nele é explicada a relação entre o inconsciente e sua linguagem e do inconsciente e os Arquétipos, importante conceito desenvolvido por Carl Gustav Jung.
Na Segunda parte do livro é explicado o trabalho com sonhos, o método das quatro etapas (as associações, a dinâmica, as interpretações e os rituais). A objetividade das descrições fazem o trabalho assemelhar-se a um “manual’, tanto para a perfeita compreensão dos conceitos quanto a utilização deles na prática clínica ou individualmente (por quem já tenha certa habilidade para tal).
No capítulo sobre Imaginação Ativa é abordado de forma detalhada o segundo caminho de comunicação do inconsciente com a mente consciente. Aí se inclui a definição e as etapas desse processo psicoterápico (também são quatro: o convite, o diálogo, os valores e os rituais). É leitura recomendada pelos grandes mestres, como Moacir Rodrigues, notório psicólogo junguiano de Brasília.
▪ Robert A. Johnson é autor dos livros She, He e We, obras que traduziram para a linguagem popular os conceitos da Psicologia Junguiana.
▪ Imaginação Ativa – Inner Work: como trabalhar com sonhos, símbolos e fantasias, de Robert A. Johnson São Paulo, Ed. Mercuryo, 2003, pág. 09.