Por que os relacionamentos homem-mulher freqüentemente fracassam ou são permeados de muito sofrimento, frustrações e até crimes contra a vida? Uma resposta possível entre tantas é: por causa das expectativas, das exigências impossíveis de serem atendidas. Para nós ocidentais a experiência do amor romântico é um complexo conjunto psicológico, uma combinação de ideais, crenças, valores, atitudes, anseios e expectativas, por vezes contraditórias, existentes em nosso inconsciente e que se manifestam em forma de emoções, sensações e comportamentos. Mesmo sem nos darmos conta, por ser fenômeno resultante de forças inconscientes, predeterminamos como deve ser nosso relacionamento com o parceiro ou a parceira, o que devemos sentir e em que deve resultar a relação. Fazemos projeções inconscientes e com base nelas cobramos dos nossos parceiros a realização de nossos anseios mais profundos.

Quase sempre essas expectativas levam à elaboração de um “contrato” unilateral. O outro raramente concorda ou sequer está a par das cláusulas desse “instrumento”. Não que as partes ajam de má fé; como já foi dito, é algo inconsciente. E mesmo quando o compromisso é “assinado” pelas duas partes ocorrem desentendimentos.

Homem e mulher desenvolvem o lado sentimental de modo diferente; a experiência de envolvimento amoroso tem para as mulheres nuances sutis que os homens vivenciam de forma diversa devido a inúmeros fatores. Um forte impedimento para o amor romântico construtivo é a predominância de valores patriarcais, em detrimento dos aspectos femininos do ser humano. Em essência, homem e mulher tem o yin e o yang (masculino e feminino), são compostos por animus e anima em suas essências. E essas duas partes de cada um devem estar integradas. Caetano Veloso cantou: “ser um homem feminino, não fere o meu lado masculino”. Não somente não fere, como faz dele um ser completo, melhor.

Orientados pelo anseio de completude e vivendo num mundo de dominação patriarcal em que a força e as virtudes do feminino foram subjugados, a maioria dos homens busca na mulher o seu lado feminino perdido, os valores femininos da vida e suas tentativas para vivenciá-los por meio da mulher. Igualmente influenciadas pela versão patriarcal da realidade, as mulheres buscam nos homens valores masculinos. Muitas gastam toda a vida alimentando sentimento de inferioridade em relação ao homem ou competindo com eles para se sentirem em pé de igualdade. Em que pode resultar o relacionamento entre um homem em conflito com sua anima, plenamente dominado pelo animus, e uma mulher igualmente distanciada de seu animus, tomada apenas pela anima?

Freqüentemente, nesses casos ou naqueles em que apenas uma das partes está sem a integração da sua dimensão complementar, há uma busca equivocada de plenitude no outro, na noção fantasiosa de que existe perdida por aí uma alma gêmea, uma banda de si que está desgarrada e, se for encontrada, irá completar o sentido da vida. Na verdade, essa parte oposta está dentro de cada um e a sensação de completude só ocorre quando acontece a aceitação e a integração do masculino com o feminino dentro de cada um de nós.

Há um princípio alquimista que diz: “só o que está separado pode ser devidamente unido.” Coisas e pessoas “misturadas” de forma confusa terão que ser desembaraçadas, separadas e identificadas antes de serem unidas em novo elemento. A separatio “dá ensejo à existência consciente; é a separação entre sujeito e objeto, entre o eu e o não-eu” (Edinger, 2005).

Esse é o objetivo maior da psicoterapia: separar conteúdos, sentimentos, valores confusos e todos os emaranhados do psiquismo, abrindo caminho rumo à individuação, à busca da totalidade do ser. Posteriormente, neste espaço, ampliaremos essa visão do homem integrado com seu lado feminino e da mulher com sua dimensão masculina num texto sobre o livro Parceiros Invisíveis, do escritor John A. Stanford.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

. Edinger, Edward F. Anatomia da Psique: O Simbolismo Alquímico da Psicoterapia. São Paulo, Editora Cultrix, 2005.

. Johnson, Robert A. Imaginação Ativa (Inner Work): como trabalhar com sonhos, símbolos e fantasias. São Paulo, Editora Mercuryo, 2003.

. ________ We: A Chave da Psicologia do Amor Romântico. São Paulo, Editora Mercuryo,1989.

. Jung, C. Gustav. Psicologia e Religião. Petrópolis. (RJ), Ed. Vozes, 1984.

. ________ Memórias, sonhos e Reflexões. São Paulo, Ed. Nova Fronteira, 2005.

. Stein, Murray.Jung, o Mapa da Alma. São Paulo, Editora Cultrix, 2006.

“O que torna a alquimia tão valiosa para a psicoterapia é o fato de suas imagens concretizarem as experiências de transformação por que passamos na psicoterapia”. A frase é de Edwuard F. Edinger, no livro Anatomia da Psique – o Simbolismo Alquímico na Psicoterapia. É uma obra fundamental para terapeutas junguianos e todos que se proponham entender a realidade da psique. Nela, a analogia entre psicoterapia e processos alquímicos, grande pilar das descobertas de Carl Jung, é explicada minuciosamente, explorando em detalhes cada um dos sete principais processos alquímicos: calcinatio, solutio, coagulatio, sublimatio, mortificatio, separatio e coniuntio.

Jung demonstrou que o simbolismo alquímico era, em grande parte, produto da psique inconsciente. Assim, as imagens alquímicas fornecem base objetiva para abordagem de sonhos e outros materiais inconscientes. “Vi logo que a psicologia analítica coincidia de modo bastante singular com a alquimia. As experiências dos alqumistas eram, num certo sentido, as minhas próprias experiências, e o mundo deles era, num certo sentido, o meu” (Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões, ed.2005, pág. 181).

Para clarificar essa analogia de forma simplificada, facilitando a compreensão de todos que tenham interesse pelo tema, tomo por exemplo neste curto texto o processo alquímico da sublimatio. Obviamente, a leitura do livro do Edinger ampliará consideravelmente a compreensão do que tento explicar aqui, embora trate-se de leitura densa e a obra não funcione como aqueles livros de auto-ajuda.

Em alquimia, a sublimatio é a operação que transforma o material em ar por meio de sua elevação e volatilização. Originado do latin sublimis, o termo sublimação significa “elevado”. É um processo de elevação por meio do qual uma substância inferior se transforma, se eleva em movimento ascendente.

Edinger afirma que todas as imagens oníricas que lembram movimento para cima, como escadas, elevadores, alpinismo, montanhas e voar, entre outras, pertencem ao simbolismo da sublimatio; podem estar indicando uma permanência maior nesse estado e ta dificuldade para viver no plano concreto.

Ao lidar com problemas concretos, precisamos ficar “acima” deles, nos elevar. Recorremos a nossa bagagem espiritual, intelectual e vivências pessoais para enxergá-los “de cima”, e portanto, por um anglo maior, com visualização ampla de possibilidades, interligações e implicâncias.

O problema reside em permanecer “no alto”, em não descer para resolver o problema! Poetas, filósofos, intelectuais, artistas, educadores e outros pensadores realizam com freqüência esse movimento ascendente e costumam enxergar aspectos que os outros não vêem. Mas, infelizmente, dominados por intricados complexos e forças arquetípicas, desenvolvem uma dificuldade em fazer o movimento de volta, a descida para o “estado sólido”, o mundo fora das nuvens, menos belo e mais duro, pouco agradável e nada poético, mas necessário. Essa espécie de fixação no estado de sublimação costuma resultar, no mundo concreto, em sérias dificuldades financeiras e na incapacidade de formar patrimônio material, necessário à segurança e ao bem-estar no mundo atual.

Veja o que diz Edinger sobre isso (in Anatonia da Psique, 2005, pág. 136):

“A sublimatio é uma ascensão que nos eleva acima do emaranhado confinador da existência terrestre, imediata, e de suas particularidades concretas, pessoais. Quanto mais alto nos elevamos, tanto maior e mais ampla nossa perspectiva, mas, ao mesmo tempo, tanto mais distantes ficamos da vida real e tanto menor a nossa capacidade de agir sobre aquilo que percebemos. Tornam-nos expectadores magníficos, mas impotentes.”

Um amigo de grande bagagem intelectual contou-me que tem muita facilidade para visualisar as questões nas suas múltiplas abrangências e para planejar, elaborar ações ideais. E, ao mesmo tempo, enorme dificuldade para realizar as ações planejadas. No plano pessoal, provavelmente ele deve ver com clareza as causas de suas dificuldades concretas, onde erra e o que deveria fazer para livrar-se dos problemas. Mas a simples compreensão do que deve ser feito não o ajuda. Isso porque será necessário conseguir “descer” do estado de sublimação e submeter-se ao mundo real e enfrentar as necessidades concretas.

A sublimatio pode, também, ter significado de purificação. Num estado de contaminação inconsciente, matéria e espírito que foram misturados devem ser purificados pela separação: “Nesse estado impuro, o espírito deve primeiro buscar sua própria natureza e verá tudo que pertence à carne e à matéria – o concreto, o pessoal, o que é movido pelo desejo – como o inimigo a ser superado. Toda a história da evolução cultural pode ser considerada como um grande processo de sublimatio, no qual os seres humanos aprendem a ver a si mesmos e ao mundo. A filosofia estóica foi vasto esforço para ensinar os seres humanos a atingirem o alvo estóico da apathia por meio da superação das paixões que aprisionam à terra. O idealismo de Platão, bem como todos os sistemas idealistas posteriores, se esforçam por apresentar a vida em termos de formas eternas e idéias universais, com o objetivo de suplantarem a irritante sujeição humana às contingências da matéria.” (Idem, pág. 143).

Ficar acima das coisas, ver a si mesmo com objetividade é chamado em psicologia de “dissociar” e nisso reside o perigo da sublimatio. Quando levada a extremo, esse estado psíquico poderá ser patológico, isso porque a dissociação é fonte de consciência do ego, mas também causa de doença mental.

Se o movimento ascendente eterniza, conduz rumo ao divino, o movimento descendente personaliza. E o ideal é que esses dois estados se combinem, dando origem a outro processo alquímico: a circulatio. A Tábua de Esmeralda de Hermes diz o seguinte sobre a circulatio: “ela ascende da terra para o céu e desce outra vez para a terra, e recebe o poder do que está em cima e do que está em baixo. E, assim, terás a glória de todo o mundo. Desse modo, toda a treva fugirá de ti.”

No plano psicológico a circulatio é fundamental, porque promove o trânsito entre todos os aspectos do ser, incluindo suas polaridades opostas, levando ao equilíbrio de forças conflitantes.

Em psicoterapia junguiana, para lidar com a fixação em estado de sublimtio trabalha-se com sonhos e exercícios de imaginação ativa, entre outros recursos, para promover a consciência acerca dos elementos subjacentes à permanência maior nesse estado psíquico e para “esvaziar” os complexos, de modo a desarticular a dominação dessas forças sobre as ações do paciente. O psicoterapeuta vai se esforçar por desenvolver no paciente a capacidade de fazer circulatio, de realizar movimentos de ascensão e de descida, de subir para o camarote e assistir do alto, mas, em seguida, descer para o palco da própria vida e atuar.

Postado por Carmelita Rodrigues, em 04 de janeiro de 2008

Por que os relacionamentos homem-mulher freqüentemente fracassam ou são permeados de muito sofrimento, frustrações e até crimes contra a vida? Uma resposta possível entre tantas é: por causa das expectativas, das exigências impossíveis de serem atendidas.

Para nós ocidentais a experiência do amor romântico é um complexo conjunto psicológico, uma combinação de ideais, crenças, valores, atitudes, anseios e expectativas, por vezes contraditórias, existentes em nosso inconsciente e que se manifestam em forma de emoções, sensações e comportamentos.

Mesmo sem nos darmos conta, por ser fenômeno resultante de forças inconscientes, predeterminamos como deve ser nosso relacionamento com o parceiro ou a parceira, o que devemos sentir e em que deve resultar a relação. Fazemos projeções inconscientes e com base nelas cobramos dos nossos parceiros a realização de nossos anseios mais profundos (entenda melhor isso lendo o post Nos desentendimentos amorosos, escolha entre a espada e a harpa ).

Quase sempre essas expectativas levam à elaboração de um “contrato” unilateral. O outro raramente concorda ou sequer está a par das cláusulas desse instrumento. Não que as partes ajam de má fé; como já foi dito, é algo inconsciente. E mesmo quando o compromisso é “assinado” pelas duas partes ocorrem desentendimentos.

Homem e mulher desenvolvem o lado sentimental de modo diferente; a experiência de envolvimento amoroso tem para as mulheres nuances sutis que os homens vivenciam de forma diversa devido a inúmeros fatores.

Um forte impedimento para o amor romântico construtivo é a predominância de valores patriarcais, em detrimento dos aspectos femininos do ser humano. Em essência, homem e mulher tem o yin e o yang (masculino e feminino), são compostos por animus e anima em suas essências. E essas duas partes de cada um devem estar integradas. Caetano Veloso cantou: “ser um homem feminino, não fere o meu lado masculino”. Não somente não fere, como faz dele um ser completo, melhor.

Orientados pelo anseio de completude e vivendo num mundo de dominação patriarcal em que a força e as virtudes do feminino foram subjugados, a maioria dos homens busca na mulher o seu lado feminino perdido, os valores femininos da vida e suas tentativas para vivenciá-los por meio da mulher.

Igualmente influenciadas pela versão patriarcal da realidade, as mulheres buscam nos homens valores masculinos. Muitas gastam toda a vida alimentando sentimento de inferioridade em relação ao homem ou competindo com eles para se sentirem em pé de igualdade.

Em que pode resultar o relacionamento entre um homem em conflito com sua anima, plenamente dominado pelo animus, e uma mulher igualmente distanciada de seu animus, tomada apenas pela anima?

Freqüentemente, nesses casos ou naqueles em que apenas uma das partes está sem a integração da sua dimensão complementar, há uma busca equivocada de plenitude no outro, na noção fantasiosa de que existe perdida por aí uma alma gêmea, uma banda de si que está desgarrada e, se for encontrada, irá completar o sentido da vida. Na verdade, essa parte oposta está dentro de cada um e a sensação de completude só ocorre quando acontece a aceitação e a integração do masculino com o feminino dentro de cada um de nós.

Há um princípio alquimista que diz: “só o que está separado pode ser devidamente unido.” Coisas e pessoas “misturadas” de forma confusa terão que ser desembaraçadas, separadas e identificadas antes de serem unidas em novo elemento. A separatio “dá ensejo à existência consciente; é a separação entre sujeito e objeto, entre o eu e o não-eu” (Edinger, 2005). Esse é o objetivo maior da psicoterapia: separar conteúdos, sentimentos, valores confusos e todos os emaranhados do psiquismo, abrindo caminho rumo à individuação, à busca da totalidade do ser.

Posteriormente, neste espaço, ampliaremos essa visão do homem integrado com seu lado feminino e da mulher com sua dimensão masculina num texto sobre o livro Parceiros Invisíveis, do escritor John A. Stanford.

Referências bibliográficas:

. Edinger, Edward F. Anatomia da Psique: O Simbolismo Alquímico da    

  Psicoterapia. São Paulo, Editora Cultrix, 2005.

. Johnson, Robert A. Imaginação Ativa (Inner Work): como trabalhar com  

  sonhos, símbolos e fantasias. São Paulo, Editora Mercuryo, 2003.

. _________ . We: A Chave da Psicologia do Amor Romântico. São Paulo,

  Editora Mercuryo,1989.

. Jung, C. Gustav. Psicologia e Religião. Petrópolis (RJ), Ed. Vozes, 1984.

. ________ . Memórias, sonhos e Reflexões. São Paulo, Ed. Nova Fronteira, 2005.

. Stein, Murray. Jung, o Mapa da Alma. São Paulo, Editora Cultrix, 2006.

“O que torna a alquimia tão valiosa para a psicoterapia é o fato de suas imagens concretizarem as experiências de transformação por que passamos na psicoterapia”. A frase é de Edward F. Edinger, no livro Anatomia da Psique – o Simbolismo Alquímico na Psicoterapia. É uma obra fundamental para terapeutas junguianos e todos que se proponham entender a realidade da psique. Nela, a analogia entre psicoterapia e processos alquímicos, grande pilar das descobertas de Carl Jung, é explicada minuciosamente, explorando em detalhes cada um dos sete principais processos alquímicos: calcinatio, solutio, coagulatio, sublimatio, mortificatio, separatio e coniuntio.

Jung demonstrou que o simbolismo alquímico era, em grande parte, produto da psique inconsciente. Assim, as imagens alquímicas fornecem base objetiva para abordagem de sonhos e outros materiais inconscientes. “Vi logo que a psicologia analítica coincidia de modo bastante singular com a alquimia. As experiências dos alqumistas eram, num certo sentido, as minhas próprias experiências, e o mundo deles era, num certo sentido, o meu” (Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões, ed.2005, pág. 181).

Para clarificar essa analogia de forma simplificada, facilitando a compreensão de todos que tenham interesse pelo tema, tomo por exemplo neste curto texto o processo alquímico da sublimatio. Obviamente, a leitura do livro do Edinger ampliará consideravelmente a compreensão do que tento explicar aqui, embora trate-se de leitura densa e a obra não funcione como aqueles livros de auto-ajuda.

Em alquimia, a sublimatio é a operação que transforma o material em ar por meio de sua elevação e volatilização. Originado do latin sublimis, o termo sublimação significa “elevado”. É um processo de elevação por meio do qual uma substância inferior se transforma, se eleva em movimento ascendente.

Continuação na página CONVERSANDO

Postado por Carmelita Rodrigues, em 04/01/2008