Esperança: Diário de uma paciente

(Relato de uma paciente do Hospital de Base de Brasília, da Unidade de Oncologia)

Cheguei neste hospital no dia 22 de abril. Há meses me alimento por sonda. Estava animada pra voltar a me alimentar por “via oral”, como os médicos falam. Quero muito voltar a comer pela boca, uma coisa tão boa que só adoecendo pra perceber. Já se passaram 20 dias desde que entrei aqui e nada de fazerem a tal cirurgia.

Hoje é 15 de maio. Ontem, finalmente, fizeram minha cirurgia. Correu tudo bem e eu estava cheia de esperança, mas hoje surgiu uma infecção. Perdi a paz e a chance de voltar logo pra casa. Espero todos os dias pela melhora que me livre daqui.

Dois de julho e ainda estou neste hospital! Já vi tantos passarem por aqui, serem operados, se recuperar e ir embora. Eu continuo aqui. Melhora uma coisa, estraga outra. Eu já não tenho muito o que fazer neste lugar… Já passeei tanto pelo jardim que não tem mais graça. Pensei e repensei tudo o que tinha para pensar. Li o que tinha de ler.

Fico olhando pela vidraça. Penso nos meus filhos que estão em Ceres, Minas Gerais. Eu me preocupo com eles. Às vezes choro, de saudade ou de tristeza mesmo. Parece que estou tão sozinha… Às vezes sinto como se estivesse no meio do mar em um barquinho bem pequeno. Então olho para todos os lados e não tem ninguém. Nesses momentos e em muitos outros, paro e rezo. Parece que Deus escuta a gente… alivia a alma.

Tenho dificuldade pra dormir aqui. Fico olhando as luzes pela janela; penso em mil coisas… o que vou fazer quando voltar? Não tenho emprego… arrumar onde? Pra fazer o quê, meu Deus! A responsabilidade agora é toda minha. Meu marido foi embora com outra. Sinto muita falta dele.. muita falta… A saudade é grande…

Fiz muitas amizades aqui: as enfermeiras, o pessoal da limpeza, outros pacientes, alguns visitantes e as estagiárias da Rede Feminina de Combate ao Câncer. Elas e a voluntária Wanda trabalham de graça. Inclusive foi uma delas, a Gabriela, que me aconselhou a escrever. Faz uma semana que sinto estar desanimando de vez, me sentindo muito deprimida…

Dona Corina é minha colega de quarto desde que cheguei aqui. Minha cama fica no canto direito e a dela, no canto esquerdo. Ela tem um radinho que me atormenta muito. E ainda passa o dia inteiro rezando. Eu acho que ela reza umas duzentas ave-marias por dia. Não é muito? A gente cansa a mente com um coisa só o tempo todo! Não é que eu não goste de rezar! Gosto, mas no limite.

Hoje eu estou com esperança de que não vou demorar mais por aqui. Meu médico tava viajando e já chegou, graças a Deus. Deve apressar as coisas.

À noite fico olhando pela janela. Tem uma placa enorme com o nome Bradesco que muda de cor. Às vezes fica vermelha, às vezes branca, às vezes preta. Fico contando quantas vezes muda de cor por minuto. É incrível como podemos observar as coisas simples quando temos muito tempo… parece que nada passa despercebido; tudo é notado: cada paciente que entra ou sai do hospital, as visitas… até o grito das sirenes durante à noite! Paciente gritando de dor, criança chorando… tudo é tão vazio.

Não é que eu ache hospital o fim do mundo, mas quando vamos ficando muito tempo vai se tornando frio, cada um na sua. A gente passa a achar tudo mudado: parece que o médico não é o mesmo de antes; as enfermeiras também não. Parece que enjoam da cara da gente. Deve ser impressão, mas parece.

De visitante só tenho minha irmã que vem aqui de vez em quando. Ela mora aqui em Brasília… não é freqüente, mas vem. Meu filho mais velho também veio me ver uma vez. Fiquei muito feliz! Fitava os olhos e o coração nele pra ver se era verdade, se ele tava mesmo aqui! É incrível matar uma saudade! Mas ao mesmo tempo ficava triste por não ver também o mais novo, o Rogério… como eu amo vocês!

Fico pensando como minha vida seria diferente se eu não estivesse aqui. Que vontade de voltar atrás e fazer tudo diferente. Seguir um caminho que nem eu mesma sabia que existia. Deus, me dá outra chance!

Três de julho: durante o dia foi normal, fui ao jardim duas vezes, consegui dormir um pouco à tarde e à noite escrevi. Assisti à novela e depois fui pra cama, contar as cores do Bradesco.

Quatro de julho: o médico disse que só vai resolver meu problema na semana que vem. Então pedi a ele que me deixasse ir pra casa, passar lá uns dias e depois voltar. Estou esperando a resposta dele. Tomara que ele deixe.

Já se passaram muitas horas e o médico ainda não voltou. Hoje é quarta-feira… se eu não sair até amanhã, não vale a pena ir, a viagem é longa e cansativa; terei que voltar na segunda… ficar lá só dois dias é bobagem. Dona Corina resolveu que não vai fazer a cirurgia; quer ir embora. Já me vejo sozinha neste quarto… oh, meu Deus, me ajuda!

Hoje é cinco de julho. Acordei muito cedo; não consegui dormir direito à noite. Fiquei pensando: hoje é quinta-feira, o Dr. Rafael disse que vai fazer a limpeza na “ferida” amanhã, mas ainda terei que esperar a recuperação… quando vou embora, cuidar da minha vida?

Como me arrependo de tudo que fiz. Acho que vou chorar todos os dias da minha vida além do que já tenho chorado. Quero muito que meus filho sejam felizes. E me sinto tão impotente… quero muito nunca mais fazer eles sofrerem. Hoje penso que tudo de ruim que aconteceu em minha vida é por minha única e exclusiva culpa.

Às vezes fico pensando: existem tantas pessoas boas no mundo. Estou internada há dois meses e 19 dias e já conheci tanta gente caridosa, prestativa, pessoas solidárias com o sofrimento dos outros. Fico até envergonhada…poderia tanto estar ajudando alguém e estou em cima de uma cama. Quando eu melhorar e sair daqui também vou ajudar os outros…

Fizeram a tal cirurgia de limpeza. Hoje é 12 de julho; faltam apenas 10 dias para completar três meses que estou aqui. São nove horas da manhã e estou pensando: será que na segunda-feira vou poder ir pra casa? Que vontade de abraçar meus filhos, dizer o quanto senti saudade… que vontade de apertar, beijar e dizer “amo muito vocês!”

Aah! Ontem eu ganhei um presente da Tânia, a chefe das estagiárias da Rede Feminina. Fiquei lisonjeada por ela ter se importado comigo. Elas são maravilhosas. Não sei o nome de todas, mas peço a Deus que possam continuar com esse trabalho que faz tanto bem a quem está nessa situação. E também ontem recebi visita de Ceres. Fiquei tão alegre que à noite demorei para dormir.

São muitas as vezes que fico pensando enquanto olho pela janela de minha enfermaria. A placa do Bradesco pisca em três cores, como já disse, dá as horas e a temperatura. Troca de cores 24 vezes por minuto. Talvez pisque mais… eu consegui contar 24 vezes. Noutras vezes paro de contar e fico só pensando… nas coisas que já fiz e de que me arrependo. Não foi traição ou covardia, não. Foram caminhos errados que trilhei. Se eu pudesse voltar atrás, pelo menos a julho de 2000, como eu seria feliz! Deus me deu tudo que eu precisava. Não foi riqueza; foi o necessário: uma casa, um carro, um marido, dois filhos maravilhosos. E mesmo assim… sabe quando a gente é insatisfeita? Não tá faltando nada e ainda assim você acha que tá tudo errado e quer mudar! Foi o que aconteceu comigo.

A insatisfação me fez perder as coisas que eu amava. Não tudo, mas parte delas. Eu quero voltar a acreditar em mim novamente. Me sinto inútil às vezes… parece que nunca fiz nada que preste. Quando eu e minhas irmãs vivíamos com meus pais, eles nunca elogiavam a gente. Sempre diziam que éramos abobadas, incompetentes. Talvez isso tenha influenciado… eu não sei. Esse período aqui no hospital foi bom para eu refletir e querer fazer diferente muitas coisas, se Deus deixar.

Hoje é sábado, sempre vou para casa de parentes, mas hoje não vou, quero ficar aqui mesmo. Corina, Corininha, o que faz agora? Rezando, minha amiga? Deus há de ouvir suas preces. Reze por mim também. O seu Carlos, que está internado aqui desde que dona Corina saiu, fala muita besteira; brigo muito com ele. Digo a ele que a mulher dele foi embora, largou ele por isso… ele é mulherengo!

O Dr. Rafael veio me ver e disse que vou embora na semana que vem! Tomara que seja bem no início da semana. Vou sentir saudade de todos !

Ontem falei com meu filho Rodrigo. Ele contou que tá lá sozinho porque o Rogério viajou com o pai. Perguntou: “mama, quando você vem?” Se Deus quiser na próxima semana. Espero que dê tudo certo… tenho medo… o doutor disse que a “ferida” não tá com aspecto bom, voltou a piorar. Meu Deus, como sou encrencada: começo a melhorar, me animo para ir embora e acontece alguma coisa que apaga minhas esperanças! Não aceito mais isso. Quero voltar pra casa!

 

Hoje é 14 de julho; faz dois meses que fui operada. Estou me sentindo bem. O médico disse que amanhã terei alta. Estou contando os minutos…

 

Quinze de julho, 11 horas. Estou indo embora! Voltar pra casa… meu Deus, que felicidade, obrigada Deus, muito obrigada! Agradeço também aos médicos que tiveram as mãos abençoadas para me operar e cuidar da “ferida”. Agradeço às enfermeiras, todas maravilhosas, embora umas mais, como a Patrícia, Romualda, Gilda, o Antônio, a Leila, o Petrônio; toda a equipe da Rede…meus amigos queridos, mil beijos a todos vocês, mil abraços de gratidão. Quanto estou feliz! Amo todos vocês! Se pudessem imaginar como é bom perceber que se ganhou nova chance!

 

12 Respostas to “Depoimentos”


  1. obrigado pelo texto… estava me sentindo muito sozinho e lendo este texto pude me consolar por meus problemas e perceber como são pequenos.

  2. Carmelita Diz:

    Olá, Sérgio. Fico feliz em saber que de alguma forma lhe proporcionamos algum tipo de alento. Considero muito construtivo esse tipo de raciocínio: descobrir força em dentro de si ao perceber que todas as pessoas têm problemas e que para alguns a cruz é muito mais pesada que a nossa. Em outras palavras, isso equivale a reconhecer que perdemos energia ao maximizarmos os efeitos dos nossos problemas. Parabéns pela visão otimista… estou certa de que você tem capacidade e repertório comportamental para superar crises. Estou torcendo por você. Um abraço,
    Carmel

  3. edjane Diz:

    quem nao precisa de um ombro amigo, de um apoio nas horas tristes, de alguém que só nos veja chorar, ou apenas nos escute um pouco? psicologia, medicina da alma, a medicina do futuro breve se Deus assim permitir a cura pela fala chegou! muito bom, simplismente maravilhoso!abraços.

  4. aesia souto Diz:

    Fiquei mais certa do chamado que Deus tem para minha vida. Ajudar pacientes desacreditados,sem querer nada em troca,somente ajuda-los.È realmente muito triste saber que pessoas estão nos hospitais sem uma visita ,sem uma palavra amiga… Sou pedagoga recém formada e cristã.Fiz minha monografia:O PEDAGOGO HOSPITALAR,agora quero ser voluntária em algum hospital .Pode contar comigo!!!

  5. clesimar Diz:

    nossa como foi maravilhoso ter encontrado força nessa leitura do texto eu estava muito deprimida estou passando uma fase de minha vida muito ruim com doença. um grande abraço.

  6. Shirley Heil Diz:

    Gostaria de saber mais, sobre seu trabalho com crianças, pois assistir um programa e gostei muito, estou com dificuldade com meu minho de 12 anos, na aprendizagem ( escola ), gostaria de seu contato no Rio de Janeiro, tb sou estudante de psicologia, e gostei do seu trabalho… bjsssssssssss

  7. Carmelita Diz:

    Olá, Shirley! Faz-me muito bem o incentivo que vem dos leitores. Obrigada. Fico feliz que vc tenha gostado. Infelizmente não tenho contato no Rio: moro e atendo aqui em Brasília. Quando vier à
    Capital, visite-me! Meu telefone comercial é o (61) 9972-6076.
    Um abraço,
    Carmelita

  8. alessandra gondim Diz:

    adorei conhecer te um pouco,eu dei ca de mama terminei o tratamento esses dias ..estou muito feliz..quero te conhecer melhor.sabe de onde eu sou?rialma pertinho de ceres..bjs tudo de bom………….

  9. psicopauta Diz:

    Alessandra, esse depoimento é de uma paciente do Hospital de Base de Brasília. Foi ela quem viveu essa dolorosa, embora edificante, experiência. Acredito que sua admiração seja dirigida a ela (a qual preciso manter no anonimato.
    Um abraço,

  10. Dilma Macêdo da Costa Diz:

    Carmelita,
    Este depoimento é muito bom. Muitas pessoas precisam de ler e meditar. somente lendo é que passaremos a dar valor às nossas vidas. Minha mãe teve CA de mama, Jesus já a levou para junto dEle há dois anos. Amanhã faz três perdi meu avô, também com Ca de estômago. O meu irmão caçula (32 anos), teve CA de testículos, hoje, ele estar bem, não sei até quando, espero que Jesus tenha realmente o curado. no dia 15/01/09 ele terá consultas com a oncologista Drª Cláudia/Marcos (HUB), sempre ficamos apreensivos, pois esta doença é muito traçoeira. Mas confio no Senhor Jesus, tenho certeza que Ele quer o melhor para nós. Diante de tudo isto sinto-me fragilizada.
    Ah! gostaria de saber se esta paciente estar bem.
    Abraços,

  11. Flvia Paiva Diz:

    Este texto me deu um ponto de luz;Pois pude ver que Deus nos guia e nos norteia para podermos dar continuidade s nossas vidas, compartilhar experincias e aprender com outras.Quero agradecer a todos que compartilham amor, esperana e compaixo…
    Feliz dos que amam sem querer recompensas!

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