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A síndrome do pânico é analisada por diferentes abordagens psicológicas, havendo explicações diversas para as causas subjacentes desse transtorno e propostas diferentes de intervenções psicoterápicas. Apesar das diferenças, existem aspectos cujas explicações convergem para o mesmo ponto central, embora sejam adotados termos ou expressões diferentes para mencioná-los. É o caso, por exemplo, da concepção de pânico como neurose, predominante tanto na psicanálise quanto na Gestalt-terapia e na abordagem junguiana. Psicanalistas e gestaltistas concordam que as neuroses têm origem em traumas, ainda que os teóricos da Gestalt considerem essas experiências dolorosas como situações inacabadas produzidas por interrupções do contato. Se Perls afirma que a neurose é um estado de desequilíbrio decorrente do conflito entre os imperativos pessoais e os do meio, Freud fala em contenção das pulsões libidinais. Ora, contemos nossos instintos por força de imposições externas, ainda que indiretamente, i.e., as deliberações podem ter origem interna, mas serão reflexo de aspectos introjetados do meio. A experiência de desamparo, real ou imaginário, como origem das neuroses é outro ponto de concordância entre gestaltistas e psicanalistas. Segundo Pereira (2003), os relatórios clínicos de Freud mostram a associação entre pânico (ataques ou acessos de angústia) e experiências de desamparo, como se pode constatar no trecho reproduzido por Pereira: “o desencadeamento dos acessos é relacionado a acontecimentos de separação brutal de seres muito próximos ou de perturbações em situações que até então representavam segurança e proteção para o sujeito” (p.71). De forma similar, quando o indivíduo se defronta com uma situação de impasse existencial, na qual ele tem que lidar com algo que é ao mesmo tempo intolerável e indispensável, a introjeção torna-se a única alternativa viável, uma vez que é imposto pelo outro (embora isto seja intolerável) para evitar a experiência de ser desamparado por esse outro, visto pelo indivíduo como sendo indispensável à sua sobrevivência. Desse modo, o medo do desamparo pode fazer com que o indivíduo utilize várias formas de interrupção do contato, sempre que este contato possa significar possibilidade de frustrar as expectativas do outro e de ser desamparado por este. Quando os psicanalistas propõem intervenções terapêuticas voltadas para a reconstrução do ego, estão defendendo o mesmo que os gestalt-terapeutas quando estes trabalham pela integração do Self. Se para a Psicanálise a incumbência do terapeuta é ajudar o paciente a relembrar, recuperar e reintegrar materiais inconscientes de forma que a vida atual dele possa ser satisfatória, como explica Fadiman (1986), para os gestalt-terapeutas o objetivo é o mesmo; o método é que é diferente. Psicanálise e Gestalt-terapia divergem quanto à ênfase dada ao passado: a Gestalt-terapia enfatiza o aqui e agora, importando-se com eventos do passado apenas quando estes ainda são presentes, quando continuam interferindo nas emoções, percepções e ações do indivíduo, perturbando a formação de novas figuras. Para os gestalt-terapeutas, mais importante do que a compreensão teórica das causas da neurose é a conscientização do indivíduo (o estar aware) do que ele está vivendo, experienciando no presente; de como ele está percebendo os fatos. Um dos reflexos disso é o fato do indivíduo responsabilizar-se mais pelos seus estados emocionais, comportamentos e/ou suas dificuldades adaptativas no presente, podendo atuar de forma diferente e mais eficiente no sentido de modificar o campo organismo-meio. Fadiman (1986) esclarece que boa parte do trabalho de Fritz Perls, o criador da Gestalt-terapia, foi dedicado ao que ele próprio considerava uma extensão do trabalho de Freud, uma revisão da teoria psicanalítica. Em razão disso, as duas abordagens contêm muitos pontos em comum e muitas divergências entre si. As divergências entre Perls e Freud seriam mais relacionadas aos métodos de tratamento psicoterápico do que às exposições teóricas acerca da importância das motivações inconscientes, da dinâmica da personalidade ou dos padrões de relacionamentos humanos, por exemplo. Perls achava que a falta de visão holística sobre o funcionamento do organismo humano limitava o trabalho de Freud. Ao contrário de Freud, Perls dava ênfase particular ao material óbvio (figura), em detrimento dos conteúdos reprimidos (fundo). Da mesma forma, Perls acreditava que a consciência do como a pessoa se comporta a cada momento é mais importante para a autocompreensão e para promover a mudança do que a compreensão do porquê de determinado comportamento (idem). A teoria dos instintos e da libido é outra divergência de Perls em relação à abordagem freudiana:Quando Perls começou a formular sua própria teoria do que Freud denominava instinto, ele sugeriu que um organismo tem miríades de necessidades que são sentidas quando o equilíbrio psicológico e/ou fisiológico é perturbado. Assim, como há milhares de tipos de distúrbio do equilíbrio, há milhares de tipos de instintos que aparecem como meios pelos quais o organismo tenta reequilibrar-se. Na visão de Perls, então, nenhum instinto (por exemplo: sexo ou agressão) é ‘básico’; todas as necessidades são expressões diretas de instintos do organismo (idem, p.128). Ainda segundo Fadiman (op. cit.), Perls discordava também da afirmação de Freud de que a importante tarefa do terapeuta era a liberação de repressões, após a qual o trabalho e a assimilação do material ocorreriam naturalmente. Ao contrário disso, Perls apregoava que, pelo simples fato de existirem situações inacabadas, as pessoas têm muito material de fácil acesso ao trabalho terapêutico; que a tarefa importante e de difícil realização é a assimilação desse material, o mastigar, digerir e integrar traços, hábitos, atitudes e modelos de comportamento previamente introjetados. De forma resumida, Fadiman (1986) apresenta alguns correlatos ente a teoria psicanalítica e a abordagem gestáltica, encontrados em pares de conceitos gerais: Catexia de Freud e figura-fundo de Perls; libido de Freud e excitação básica de Perls; associação livre de Freud e continuum de consciência de Perls; consciência (consciousness) de Freud e conscientização (awareness) de Perls; o enfoque de Freud na resistência e o enfoque de Perls na fuga da conscientização; a compulsão à repetição de Freud e as situações inacabadas de Perls; a regressão de Freud e o retraimento (do meio ambiente) de Perls; o terapeuta que permite e encoraja a transferência, de Freud, e o terapeuta que é um “habilidoso frustrador”, de Perls; a configuração neurótica de defesa contra impulsos, de Freud, e a formação rígida das gestalten, de Perls; a projeção transferencial de Freud e a projeção de Perls… e assim por diante. (p.129). Apesar de discordarem em pontos fundamentais, Freud e Carl Jung foram amigos íntimos de 1907 a 1912. O trabalho de Freud influenciou fortemente a teoria de Jung: a publicação de A interpretação de Sonhos, de Freud, inspirou Jung na sua análise sobre os símbolos oníricos e as teorias freudianas sobre os processos inconscientes serviram para Jung considerar a possibilidade de analisar sistematicamente a dinâmica do funcionamento mental, indo além da classificação superficial vigente na psiquiatria da época. Essa influência pode ser percebida também na concepção junguiana de inconsciente pessoal, semelhante ao inconsciente da teoria psicanalítica (FADIMAN, 1986). Segundo Moacir Ribeiro (informação verbal)4, Freud considera os símbolos representações mentais das pessoas, relacionados a convenções e que podem ser reunidos em uma lista de quantidade limitada. Jung, por sua vez, defende que o símbolo tem capacidade inesgotável de representações, i.é, não há número limitado de símbolos por que eles são a linguagem, a fala da alma, inclusive para se dizer o que não pode ser dito com palavras. Para Jung, um símbolo é universal, diferentemente dos sinais, cujo significado depende do contexto cultural no qual esteja inserido ou de onde decorra. Assim, nos comunicamos no nível consciente por meio de signos. Já o inconsciente, utiliza símbolos para se expressar, por meio de imagens, idéias ou sentimentos. Símbolos, na concepção junguiana, têm origem nos arquétipos e vêm antes do indivíduo. Um símbolo se corporifica na experiência individual, mas transcende a individualidade dos sujeitos. Os mitos são conjuntos de símbolos ordenados numa história com começo, meio e fim. Para Jung, mito é uma verdade eterna que a consciência não compreende, por ser utilizada uma linguagem arcaica (idem).Ainda de acordo com Moacir Rodrigues, para Jung a arte é uma condensação inconsciente de símbolos feita pelo artista, que tem capacidade de entrar no inconsciente (ser temporariamente psicótico) e trazer para fora, em forma de imagem ou sons, o que vê. O artista faz essa viagem e volta em seguida à normalidade, ao estado de consciência, permanecendo normal, o que o diferencia dos psicóticos. A exemplo dos símbolos, os sonhos são outro ponto de divergências entre Freud e Jung. Para Freud, sonho é uma manifestação do inconsciente e contém conteúdos latentes (restos diurnos, vivências correntes e resíduos de sofrimento) e conteúdos manifestos (realização de desejo predominantemente em imagens e sensações). Para Jung, sonho é isso, mas não só isso; é também comunicação do inconsciente com o consciente, uma fala simbólica que pode ser sim um desejo reprimido, mas pode também ser desejo não reprimido. O que sonhamos hoje pode ser decorrente dos mitos de nossos antepassados (idem). Freud fala de sonhos pessoais, oriundos do inconsciente pessoal e Jung fala de grandes sonhos, provenientes do inconsciente coletivo e dos arquétipos. Para os psicanalistas é preciso que alguém interprete o sonho, pois as defesas pessoais impedem que a pessoa entenda seus próprios sonhos. Para os junguianos é exatamente o contrário: somente quem sonha é capaz de compreender o significado do próprio sonho. E independentemente de haver interpretação ou não, só a ocorrência do sonho já tem em si um efeito de higiene psíquica que leva à homeostase, ao equilíbrio psíquico. Nisso ambos concordam, que o sonho é a busca da homeostase psíquica. As abordagens junguiana e gestáltica têm concepções semelhantes acerca dos sonhos: mais importante do que a interpretação cognitiva é o ato de experienciar o material onírico. Na análise de sonhos, Jung fazia o paciente voltar às imagens do sonho e lhe perguntava: “o que dizia o sonho?” (FADIMAN, 1986). O trabalho com sonhos da Gestalt-terapia é idêntico: a pessoa é instruída a imaginar-se novamente no momento mais marcante do sonho e reviver as impressões e emoções, orientando-se como se estivesse no presente. Perls sugere que os sonhos são mensagens existenciais que podem nos ajudar a compreender quais as situações inacabadas que trazemos conosco (id.). A terapia cognitiva surgiu na década de 60 e se desenvolveu em um cenário de predominância da psicanálise e do behaviorismo. Historicamente, sabe-se que um novo movimento sempre busca algo a quê se opor ou ao qual possa acrescentar elementos. Segundo Knapp (2004), uma das divergências entre a TCC e a psicanálise é o fato de que os terapeutas cognitivistas não interpretam os conteúdos levados às consultas. Em vez de interpretados, eles são elaborados em conjunto com o paciente, num trabalho de identificação, exame e correção das distorções do pensamento que causam sofrimento emocional ao paciente. Outra diferença: na psicanálise a tarefa do terapeuta é expor, explorar e isolar os instintos componentes que foram negados ou distorcidos pelo paciente e a reformulação ou a adoção de hábitos novos e mais saudáveis ocorrem sem a intromissão do terapeuta. (FADIMAM, 1986). Contrariamente ao behaviorismo, a TCC não enfatiza o determinismo ambiental; propõe que a testagem da realidade seja dirigida ao pensamento do paciente, e não ao seu comportamento encoberto. (Idem).Beck e colaboradores (1987, in KNAPP, 2004) descrevem dois tipos de personalidade influenciadas de forma diferente no surgimento dos transtornos emocionais: personalidade tipo sociotrópico e tipo autônomo. As pessoas do tipo sociotrópico valorizam relações interpessoais íntimas e são dependentes de gratificações sociais, com ênfase em ser aceito e amado pelos outros. As de orientação autônoma refletem alto investimento em independência pessoal, obtendo satisfação na liberdade de escolha, conquistas e aquisições pessoais. Beck afirma que um indivíduo com boa saúde mental reflete uma combinação equilibrada dos dois tipos de personalidade, uma vez que os indivíduos altamente sociotrópicos ou altamente autônomos apresentam igual vulnerabilidade para problemas emocionais. Essa classificação cognitivista dos indivíduos como sociotrópicos ou autônomos é semelhante ao modelo junguiano de introversão e extroversão. Knapp (2004) esclarece que a Terapia Comportamental trabalha três níveis de cognição: pensamentos automáticos (PA), pressupostos subjacentes e crenças nucleares. Essas últimas vão sendo construídas e formadas desde as primeiras experiências de vida e se fortalecendo com o decorrer dos anos; moldam a percepção e a interpretação dos eventos, modelando o jeito psicológico de ser de cada um. Para esse autor, em não havendo correção das crenças nucleares disfuncionais, elas se cristalizam como verdades absolutas, inclusive em se tratando de juízo de valor acerca das outras pessoas e do mundo, coisas como supor que as pessoas são traiçoeiras, desleais ou que o mundo é ameaçador. As crenças nucleares disfuncionais são absolutistas, generalizadas e cristalizadas. Essa descrição do que Knapp considera uma estrutura do pensamento lembra o mecanismo de defesa denominado pela Gestalt-terapia de fixação. Outro aspecto da TCC que possui correspondente na Gestalt-terapia é a ênfase no presente. Para Knapp (2004), a TCC presta atenção ao passado apenas o necessário. Conhecer as experiências prévias do paciente pode revelar a fundação dos problemas, mas é possível resolver a fonte deles focalizando primariamente o presente. “O foco não é tanto o que foi, mas o que é e o que mantém ou reforça o comportamento disfuncional” (P.38.). Semelhante a isso, a Gestalt apregoa que mais importante do que os porquês (localizados no passado) é a forma como um evento passado se manifestação no presente, como ele é sentido e vivenciado pelo indivíduo no aqui e agora.A descoberta-guiada, nos moldes do questionamento socrático, é realizada também tanto por gestaltistas quanto por junguianos. Consiste em o terapeuta fazer perguntas com respostas abertas de forma que o paciente entenda o problema e explore possíveis soluções (idem). Do mesmo modo, quando os terapeutas cognitivos recorrem à exposição interoceptiva estão fazendo algo semelhante ao que fazem os gestaltistas no psicodrama imaginário, quando esses orientam o paciente a entrar em contato com a vivência temida, a reviver a situação ameaçadora da qual desejam fugir. É, ainda semelhante à proposta dos junguianos de integração das sombras. No caso específico do pânico, a Gestalt-terapia propõe que em vez do paciente negar, rejeitar ou tentar evitar os sintomas, deve acolhê-los, senti-los em profundidade, entrar em contato eles (em condições ambientais seguras) para que, em seguida ou concomitantemente, possa se dar conta de que tem controle sobre eles. A pessoa precisa compreender que a taquicardia não o levará à morte e que essa alteração cardíaca diminui na medida em que ela deixa de temê-la. Ao perceber-se capaz de enfrentar os ataques de pânico, com essa postura de passividade controlada, a pessoa percebe também que eles diminuem de intensidade e freqüência. Os treinos de assertividade, técnica da Comportamental usada na TCC, destinam-se a ensinar ao paciente formas socialmente adequadas de expressão verbal e motora. Inclui a expressão de afetos e opiniões de modo direto, a reivindicação de tratamento justo, igualitário e livre de demandas abusivas. Segundo Rangé (2001), o princípio teórico é o de que comportamentos de preocupação e medo são aprendidos a partir da interação com modelos autoritários, o que inibiria as respostas espontâneas e naturais da pessoa, que deixa de expressar suas emoções, evita contatos visuais diretos e teme expor opiniões próprias. Isso é o mesmo que fazem os gestal-terapeutas, embora com metodologia diferente, ao promoverem a reflexão do cliente quanto ao que ele introjetou de comandos, opiniões e limitações vindas dos outros; é promover a reflexão sobre quem é ele e o que ele realmente quer, o que tem origem externa e foi engolido sem mastigação, impedindo a satisfação das próprias necessidades. A técnica da cadeira vazia, da Gestalt-terapia, na TCC ganha o nome de role-play racional-emocional. Inicialmente, enquanto o terapeuta dramatiza a parte “emocional”, o paciente representa a parte “racional” da sua mente, sendo orientado a argumentar contra seu pensamento negativo. Ambos trocam de papel na etapa seguinte do experimento para que o paciente desenvolva a capacidade de se distanciar emocionalmente das questões em foco e aprenda a dar respostas não-emocionais às suas crenças (KNAPP, 2004). O objetivo da técnica nas duas abordagens é o mesmo: fazer com que o paciente, ao transcender a mera compreensão intelectual dos eventos, possa desligar-se emocional e mentalmente deles a partir da re-significação que lhes é atribuída.

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A loucura, desrazão ou insanidade, a destituição dos direitos dos portadores de enfermidades da mente e as alternativas para contornar esse grave problema social tem sido, ao longo de séculos, motivo de discussões, análises e teorizações. Erros vêm substituindo outros no trato com a questão e na busca pelas abordagens e soluções corretas. Desde a conceituação a práticas terapêuticas social e moralmente condenáveis, muitos têm sido os equívocos cometidos e os tormentos impostos ao doente mental. O que é, afinal, a doença mental? Quais parâmetros têm sido utilizados na delimitação e exploração desse tema? Qual é o lugar social do doente mental? A exclusão social tem funcionado mais como terapêutica, como “proteção” para os membros da sociedade ou não passa de instrumento para assegurar a ordem social vigente? São questões para as quais este estudo busca respostas.

CAUSAS DA DOENÇA MENTAL

“O conceito de enfermidade, seja física ou mental, implica em desvio de alguma norma claramente definida. No caso de enfermidade física, a norma é a integridade estrutural e funcional do corpo humano. Assim, apesar da conveniência da saúde como tal ser um valor ético, a questão o que é a saúde pode ser respondida em termos anatômicos e fisiológicos. Qual é a norma da qual o desvio é considerado doença mental? Essa questão não pode ser respondida facilmente, mas qualquer que seja a norma, podemos estar certos de uma coisa: essa deve ser estabelecida em termos de conceitos psicossociais, éticos e legais Por exemplo: noções tais como “repressão excessiva”, e “agindo de acordo com um impulso inconsciente” ilustram o uso de conceitos psicológicos para julgar a assim chamada “saúde” ou “doença mental”. (…) Em resumo, quando alguém fala de doença mental, a norma à qual o desvio é comparado é um padrão psicossocial e ético. Contudo, medicamento é procurado em termos de medidas médicas que – se espera e se supõe – são livres da vasta gama de valores éticos. Desse modo, a definição e os termos nos quais se procura a cura da perturbação diferem bastante. O significado prático desse dissimulado conflito entre a alegada natureza da falha e a cura real só dificilmente poderia ser exagerado. (…) Já que as intervenções médicas são designadas para curar somente problemas médicos, logicamente é absurdo esperar que resolvam problemas cuja existência tem sido definida e estabelecida em bases não médicas” (Szasz, 1970:22).

O trecho acima é parte de um ensaio do psicanalista norte-americano Szasz, no qual ele critica o conceito de doença mental adotado pelas teorias e práticas psiquiátricas em que prevalece a analogia entre doença mental e doença corporal, uma concepção reducionista que confunde doença neurológica com problema existencial e interpreta a comunicação das pessoas com o mundo como sintoma de funcionamento neurológico. Szasz considera a Psiquiatria uma instituição essencialmente moral e política e um estratagema para evitar confrontações com os problemas sociais e os conflitos morais. Com essa prática perversa, essa ciência reduziria as vicissitudes da vida a doenças mentais. O psicanalista acusa as intervenções psiquiátricas nesses moldes de funcionarem, em muitos casos, como tirania política disfarçada de terapia.

Após a Segunda Guerra Mundial, segundo Luiz Fernando Dias Duarte (1993), reações ao reducionismo biomédico comprometido com a idéia de “doença mental” começam a ganhar força e se consolidam com enfoque no psicológico e no social. A primeira forma se apoia, sobretudo, na Psicanálise e a segunda, na crítica social às conseqüências do capitalismo e ascensão do industrialismo. A compreensão das perturbações orgânicas e/ou comportamentais é subordinada aos condicionamentos sociais. Surge, então, uma nova expressão em oposição a esse reducionismo biomédico: distúrbio ou aflição psicossocial, que contempla a ação concomitante e recíproca dos condicionamentos sociais e das dinâmicas psicológicas.

LUGAR SOCIAL DO DOENTE MENTAL

Paradoxalmente, o doente tem assistência do Estado para ser cidadão, mas é a própria assistência que lhe priva dos direitos individuais e o exclui do convívio social. No Ocidente, o enfermo mental, segundo Joel Birman (1991), é um cidadão não devidamente reconhecido pelo Estado, o que tem como conseqüência a privação e a negação da cidadania desses enfermos. Essa destituição de direitos tem produzido, ao longo dos anos, uma “dívida social”, devido à imposta exclusão social dos enfermos mentais. Birman atribui aos movimentos sociais da área de saúde mental a incumbência de resgatar a condição de cidadania aos doentes mentais. O assunto tem sido, há anos, tema de debates acerca da assistência psiquiátrica e do movimento antimanicomial.

As causas dessa “condição negativa de cidadania” seriam conjunturais ou estruturais? Birman argumenta que essa destituição “estabeleceu-se estruturalmente na tradição cultural e histórica do Ocidente quando, num lance decisivo, o campo da loucura foi transformado no campo da enfermidade mental, na aurora do século XIX” (Birman, 1991:73).

Ainda segundo Birman (1991), apoiado nas idéias de Foucault, atribuir ao louco o estatuto social de enfermo garantiu-lhe o direito à assistência e ao tratamento sob a proteção do Estado, mas autorizou também a sua exclusão social e a destituição da cidadania plena. Esse paradoxo estrutural da constituição histórica da doença mental estabeleceu-se no Ocidente com o advento da Revolução Francesa: “Foram esse modelo assistencial e essa racionalidade naturalista da medicina moderna, tributários do discurso do Iluminismo, que caucionaram a retirada provisória ou definitiva dos denominados direitos sociais do campo da loucura, com a única exceção de que, como enfermos mentais, os loucos teriam direito de ser cuidados medicamente e ser protegidos pelo Estado” (Birman, 1991:74).

EXCLUSÃO DOS ENFERMOS MENTAIS

No final do século XVIII, a assistência aos chamados na época de “alienados” passa por uma reorganização legal. Na Inglaterra, instituições privadas de beneficência recebem apoio do Estado para exercer função de restituidoras da sanidade e retificadoras de desvios morais. O Retiro, instituição comandada pelo quacre Samuel Tuke, se fortalece e conquista stauts de modelo com as concessões da nova legislação. Na França, a nova ordem social decorrente da Revolução Francesa cria ambiente favorável ao trabalho tido como “revolucionário” de Pinel em Bicêtre. Surgem, assim, dois “mitos” na história dos asilos de loucos. A primeira se destaca por experimentar o afastamento do centro urbano e proporcionar aos doentes mentais um ambiente de proximidade e integração com a natureza, aliado à moral cristã. A segunda, tornou-se célebre por ter “libertado” os loucos de correntes e proporcionado a eles “liberdade vigiada”. No entanto, Michel Foucault (1987) faz contundentes críticas aos modelos de recuperação das duas instituições:

“A operação, tal como era praticada no Retiro, ainda era simples: segregação religiosa para fins de purificação moral. A que é praticada por Pinel é relativamente complexa: trata-se de operar sínteses morais, assegurar uma continuidade ética entre o mundo da loucura e o da razão, mas praticando uma segregação social que garanta à moral burguesa uma universalidade de fato e que lhe permita impor-se como um direito a todas as forma da alienação” (Foucault, 1987: 488).

Mais recentemente, Sérvulo A. Figueira (1978), analisando o conceito de doença mental a partir da relação entre sintomas e ordem pública, afirma que o comportamento psicótico se opõe ao que se considera ordem pública, especialmente a parte que governa as pessoas, em virtude delas estarem na presença física imediata uma da outra. E acrescenta: “grande parte do comportamento psicótico é, antes de mais nada, um fracasso em acatar regras estabelecidas ou reforçadas por algum grupo encarregado de avaliar, julgar ou policiar” (Figueira, 1978:12).

A justificativa para a exclusão social do doente mental é, quase sempre, a necessidade de ensinar a eles regras e condições de convívio social ou de proteger os “normais” de ações insanas. Para Birman (1991), trata-se da imposição de um tratamento moral:

“Instalado forçosamente na periferia do espaço social, nos confins do espaço urbano, nos limites da cidade e da razão, o louco como um não sujeito e como um quase sujeito seria ativamente convertido em sujeito da razão e da vontade, mediante as técnicas de sociabilidade asilar impostas pelo tratamento moral. Somente dessa maneira poderia a figura assujeitada da doença metal ser restaurada na condição de sujeito do contrato social, após ter sido submetido à força ao treinamento moral e ao aprendizado das regras básicas que regulariam as trocas sociais individualizadas” (Birman, 1991:75).

A família tem importância e participação cruciais tanto na exclusão social dos doentes mentais quanto nos processos de cura e reintegração. A opção por uma instituição asilar nem sempre é motivada pelo desejo de “livrar-se do problema”, do “estorvo” ou “motivo de vergonha”. Considerando-se os casos em que as relações de afetividade e responsabilidade são verdadeiras, o afastamento – temporário ou não – do doente pode significar falta absoluta de alternativa, havendo circunstâncias como falta de estrutura física e financeira para atender às necessidades do enfermo e existindo até risco de vida face à insanidade grave e descontrolada. No estudo “Manejo Comunitário, Saúde Mental e Experiência da Pessoa” (Caroso, Rodrigues e Almeida-Filhos, 1998:71) os pós-graduandos em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul destacam o papel da família e das redes de parentesco no processo de reconhecimento e tratamento das doenças mentais:

“Ele (o processo) se opõe ao modelo desenvolvido pela medicina tradicional, segundo o qual a doença é pensada como um fenômeno preponderantemente orgânico e, sendo assim tratada, desvincula-se dos condicionamentos sócio-estruturais, o que em algumas situações dificulta a reinserção social do doente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No Ocidente, a preocupação dos Estados e dos profissionais a serviço deles parece estar menos relacionada ao real estado psicossomático do indivíduo, seus direitos e suas necessidades, e mais com o tipo de relação que ele mantenha com os demais membros da sociedade. Isso significa dizer que os interesses coletivos do Estado têm sido privilegiados em detrimento dos interesses dos doentes mentais. A sociedade adoece as pessoas e, em a doença se manifestando publicamente, as exclui, punindo-as por terem deixado de se “enquadrar” nas exigências, necessidades e nos modelos coletivos. Em seguida, tenta recuperá-las recorrendo aos mesmos instrumentos ou mecanismos de controle que as adoeceram. Tão paradoxal quanto o afastamento do doente mental do convívio social para adequá-lo ao espaço social do qual fazem parte é a utilização de técnicas igualmente opressoras e semelhantes às causas do distúrbio. No entanto, apesar de se aceitar os questionamentos contrários à exclusão social dos enfermos mentais como sendo racionais e humanitários e reconhecer os reais direitos a tratamento social e terapêutico digno, não se pode ignorar as também reais necessidades das pessoas ditas normais, que não podem ter as vidas expostas à insanidade ameaçadora dos doentes. Qual é, então, a solução? Como tratar a questão sem incorrer em exageros ideológicos ou equívocos sociais? Essa reflexão apenas aponta a necessidade de se continuar analisando a questão em busca de respostas e soluções de consenso.

*Título original do artigo: Construção cultural de doença mental e justificativas para a exclusão do doente mental

Autoras: Bruna Lira de Luca; Carmelita Gomes Rodrigues, Fernanda Daltro, Rosemary Borges (supervisão de José Bizerril Neto, antropólogo e professor universitário)

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São os pais e não os “outros” a principal influência na criação dos filhos. É o que afirma o assistente social Maurício Zomignani, coordenador do Fórum da Cidadania. Crianças e adolescentes são jogados à própria sorte, orientados pelo anseio e pedido de gozo sem limites. A base da intolerância, da violência e do individualismo está, segundo ele, no anseio de “viver plenamente o presente, a concretização de suas vontades, cabendo aos outros apenas viabilizar e se subordinar a esses desejos”. Na cultura da permissividade e da falta de tempo ou preparo para educar e cuidar das crianças, adultos se rendem aos valores e interesses do comércio “confundindo gente de bem com gente de bens”. Jovens de classe média são flagrados cometendo atrocidades do tipo tocar fogo em índio ou agredir trabalhadores nos pontos de ônibus e seus pais ficam estupefatos, esquecendo-se de que os abandonaram à influência de mídias totalitárias e à lógica do ter. A seguir: o artigo completo do Maurício. 

“Foram os melhores dias da minha vida, pude fazer o que quis, na hora que quis. A menina que ficou fora de casa por três dias e cuja mãe foi à delegacia e aos jornais dando-a como desaparecida, não pode ser vista como um caso isolado, curioso ou um motivo para discussões sobre o que está certo ou errado, como em um julgamento público ou num debate sobre o lance duvidoso no futebol. Mas pode servir para uma ampla reflexão acerca da adolescência e das relações entre gerações.

A fala da jovem, que apenas enfatiza o discurso de toda a sociedade, revela-se como um pedido de gozo sem limites. Viver plenamente o presente, a concretização de suas vontades, cabendo aos outros apenas viabilizar e se subordinar a esses desejos. Esse é o anseio dominante, base da intolerância, violência, do individualismo, da ação imediata e irrefletida, marcas de nosso tempo.

Vivemos um momento de fascinação pela infância, pela tecnologia e pelo moderno que Paulo Freire chamaria de consciência mágica. É o oposto extremo à concepção de um século atrás em que não se via a criança como um ser propriamente dito, com desejos e dinâmica própria, mas como adulto em miniatura.

Na visão atual, totalmente oposta, a criança parece estar pronta. É representada em filmes e propagandas como nascida pronta, um ser completo, decidido, formado, maduro, o grande herói dos tempos modernos. Os adultos lhe dão prioridade absoluta, mas não conseguem ensinar uma relação saudável com as coisas mais prosaicas, como seriam alimentação e o vestuário. Rendem-se totalmente a valores e interesses do comércio; não conseguem valorizar o processo das conquistas, expresso por exemplo num livro, e abandonam as crianças às mídias totalitárias; entregam seus filhos (como a si mesmos) à lógica do TER , confundindo gente de bem com gente de bens. E depois surpreendem-se com seus filhos e com o s alheios, como se estes surgissem de explosões sem pé nem cabeça, fruto da televisão e das más influências. Mas se todos os erros de nossos filhos forem fruto das más influências, teremos de concluir que para os filhos de alguém as más influências são os nossos , e assumiremos, completamente, que nós não somos influência alguma. Certos estão os pais quando chamam seus filhos de mal criados.

Nossos filhos não são heróis nem vilões. E quem cria filhos fixados em uma idéia ou outra não os vê de verdade. Paga o alto preço de não ser reconhecido por eles porque primeiramente não os reconheceu. Nossas crianças e nossos jovens são seres com desejos e necessidades – a maior deles é serem reconhecidos e amados como são, não como os imaginamos. Eles existem como seres, mas estão em desenvolvimento, e nesse processo precisam de apoio, de empurrões e de padrões a serem seguidos, referências a serem superadas, ou seja, eles precisam de nós – e menos de nossos presentes materiais!

*Maurício de A. Zomignani – Assistente Social e

coordenador do Fórum da Cidadania.

Artigo extraído da revista Viver Psicologia, dezembro/2003.