Sentir a dor do outro é identificação; é falta de ego distônico; é ego sintônico. É dinâmica adoecida que não ajuda nem à própria pessoa, nem a quem se deseja ajudar. Não se deve confundir a noção de solidariedade ou compaixão com isso. São coisas diferentes: a compaixão é necessária, a solidariedade também, claro. Mas essas coisas podem ser vivenciadas sem um “misturar-se” ao outro. Deve-se sempre separar o que é nosso do que é do outro;  olhar para o outro em dificuldade ou em sofrimento com o ego distônico, isto é, sem entrar no sofrimento do outro, olhar de fora. Senão, a pessoa que está tentando ajudar também se fragiliza e perde condições de acolher ou socorrer o outro. Um exemplo concreto: quando um filho se machuca, é claro que a mãe amorosa vai acorrer ao filho para ajudá-lo porque o ama e não o quer sofrendo. Imagine se, em vez de manter-se forte e no papel de mãe, ela se desmancha em choro e sofrimento e sente nela a dor do filho a ponto de perder a ação? Coitada da criança.A mãe equilibrada, ao contrário disso, vai continuar no lugar dela, de mãe da criança, outro ser ligado àquele que se machucou, mas separando-se dele a ponto de manter o equilíbrio para ter condições de socorrer o filho. As pessoas me perguntam sempre como nós terapeutas conseguimos lidar com tanto sofrimento sem se abalar.  Digo sempre que é uma das primeiras coisas que aprendemos na formação em Psicologia Clínica: separar os conteúdos dos pacientes dos nossos. Evidentemente que o recurso não é a indiferença: sentimos compaixão pelo sofrer do paciente, nos solidarizamos com ele e o acolhemos, mas a dor dele continuará, em terapia como no dia a dia, sendo dele e de mais ninguém. Se nos misturássemos aos pacientes, adoeceríamos junto e não conseguiríamos atender mais ninguém . Aconselho as pessoas com movimento ou atuação de “ajudadoras” a pensarem nisso e a adotarem essa dinâmica. Para o bem de todos. Até porque, cada dor, cada sofrimento encerra em si uma oportunidade de aprendizado muito individual, é uma lição muito direcionada. Então ninguém pode tomar para si um sofrimento que, no outro, tem um propósito específico. Acolher, socorrer, solidarizar-se não exige um misturar-se ao outro.

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