Sou contra a legalização da maconha. O fato de o cigarro e o álcool serem “legais” não impediu que milhares de vida se perdessem. Foi, sim, um facilitador para o consumo dessas drogas, igualmente nocivas. A legalidade permitiu a apologia do cigarro. Milhões de dólares foram investidos em marketing para convencer as pessoas de que fumar era charmoso e estava associado ao sucesso,  o que arrebanhou milhões de usuários. Tampouco acho que a ilegalidade da venda e da compra da maconha seja a causa dos crimes cometidos por traficantes ou usuários em estágio avançado de adoecimento.

Uma paciente me contou ontem que era a favor da legalização da maconha. E disse que fumava pouco porque aqui em Brasília era difícil pra ela conseguir a droga. Olhei para ela com “cara de coisa nenhuma” e perguntei: “se você, estudante de Medicina,  pessoa que conhece bem os efeitos nocivos da maconha sobre o organismo humano, me diz que  usa e que usaria muito mais se fosse fácil conseguir, porque é favorável à legalização? Mais pessoas vão usar e adoecer, se for mais fácil conseguir.” Ela respondeu-me : “É, olhando por esse lado… não tinha pensado assim.”

Mas, resumidamente, eu sou  contra a legalização da maconha por causa da natureza humana.  Me refiro às diferenças entre as pessoas.Os seres humanos são diferentes, tem potencialidades, motivações e reações diferentes. Inclusive respostas orgânicas diferentes. Uma pessoa pode ser capaz de fumar maconha com moderação, sem roubar ou matar para conseguir dinheiro para comprar a droga, sem ser “dominada” pelo vício por ser orgânica e psicologicamente mais resistente ou mais “organizada”, mas isso não acontece com todos. Há aqueles que serão tragados pelo vício, terão a saúde e a vida como um todo destruída pelo vício. Por serem mais frágeis. As pessoas têm histórias de vida diferentes, têm complexos psicológicos que atuam em suas vidas de modo diverso, suscetibilidades que podem ser agravadas com o uso de certas substâncias.

A uniformização é sempre burra quando se trata de seres humanos. E acreditem, a maioria da população é formada por pessoas mais frágeis; são poucos os mais resilientes ou mais esclarecidos. Não se sabe se essas diferenças devem ser atribuídas a diferentes estágios de evolução espiritual, como preconizam os espíritas, ou se decorrem das combinações aleatórias de genes. O fato é que elas são reais. Legalizar a maconha causaria um estrago fenomenal sobre as pessoas mais frágeis que hoje não fumam e sobre as que fumam pouco.

Sendo o Estado responsável por contornar os desequilíbrios, regular os conflitos de interesses, deve pensar nas pessoas mais frágeis. Deve proibir o consumo de qualquer coisa potencialmente capaz de adoecer as pessoas ou arrastá-las à marginalidade. Aqui no DF, alguns anos atrás o governo local resolveu investir pesado em programas de combate ao tabagismo. Por causa da contabilidade. O custo com o adoecimento de pessoas fumantes era elevadíssimo. Superava em muito o retorno em forma de impostos (do contrário nunca fariam isso!) Foram sancionadas leis proibindo o cigarro em shopping centers, faculdades e qualquer lugar fechado. Tomar um cafezinho no Parkshopping e depois fumar um cigarrinho conversando potocas com as amigas foi riscado da lista de entretenimento. Ou seja: a legalização de substâncias nocivas custa caro também em termos financeiros, para o Estado e, consequentemente, para a população.

Não atribuo a culpa pela violência urbana no Rio, em São Paulo ou outros locais dominados pelos traficantes aos usuários nem à ilegalidade da droga. Se a maconha fosse liberada, os “bandidos” que hoje aterrorizam a população encontrariam caminhos para continuar ganhando dinheiro com ela e continuariam “substituindo” o Estado em atribuições deste. E continuariam a fazer aliança com políticos e gestores públicos corruptos contra o povo. Este aspecto sim pode ser considerado um das causa da violência: a corrupção e  inoperância do Estado, que deixou o mal crescer, unindo representantes dos governos e traficantes, visando sempre o lucro. A legalização ou  a “não repressão” ao uso e comércio da droga, como preferem dizer os defensores da ideia, mudaria o quê? Seriam traficantes com aprendizado de práticas criminosas a brigar pelo lucro da maconha – briga legalizada. E mais pessoas morreriam, mais famílias seriam desestruturadas pelo vício. Nunca meça as “respostas” dos outros pelas suas. Isso é reducionismo.

E nunca tente convencer profissionais de saúde de que a maconha é inócua, que não faz mal porque NÓS ATENDEMOS MUITAS PESSOAS ADOECIDAS PELA MACONHA.

Mais uma coisa: o atual sistema de saúde pública do Brasil não está dando conta das atuais demandas em relação a pessoas adoecidas pelo uso de drogas, porque deveriam agravar o quadro? Não estamos dando conta das nossas cracolândias, porque correr o risco de agravar essa situação de modo irresponsável?  Que benefícios a sociedade como um todo teria com a legalização da maconha?

Entendo que o ATUAL contexto social, cultural, econômico e da gestão de serviços públicos não é favorável ao livre acesso a nenhuma droga, nem mesmo os cigarros convencionais ou o álcool. Muita gente adoeceu por fumar ou beber livremente. Por que deveríamos repetir o erro legalizando outro ato danoso à saúde.

Na Holanda, que as pessoas costumam usar como referencial para a liberação do consumo da maconha, o consumo dessa droga é livre apenas parcialmente: lá existem  regras, limitações, restrições – que são devidamente fiscalizadas. No Brasil, em todas as áreas a deficiência nas instâncias fiscalizadores é fato notório. A legalização aqui, neste momento, sem a necessária educação do povo, ainda que com restrições tal qual ocorre na Holanda, tornaria a coisa um oba-oba absurdo!

Quantos  dos defensores da legalização da maconha já acompanharam de perto o drama de uma família que sofre em decorrência do vício descontrolado de um dos membros do grupo, seja  filho, mãe, pai, irmão, sobrinho?  Esses defensores têm em mãos pesquisas sérias NEGANDO que muitos usuários de maconha com o tempo partem para novas experiências com drogas, inclusive experimentando o crack?  Nós que fazemos oposição nos apoiamos na observação empírica, nos relatos de pacientes, mães e pais sofridos, de ex-usuários… qual a finalidade de se legalizar algo destrutivo? Apenas para facilitar o acesso, facilitar a vida de quem a usa e deseja o aval social para esse hábito? Por que essas pessoas não vestem a camisa da responsabilidade social, da defesa da vida?

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