Síndrome do Cólon Irritável tem cura. Afirmo isso com base em experiência prática. Hoje, eu e uma de minhas pacientes rimos juntas do prognóstico desastroso que outra psicóloga havia dado sobre o caso dela, usando as seguintes palavras: “esse seu problema não tem cura; mas você pode aprender a conviver com ele. E você pode se tranqüilizar lembrando-se de que em qualquer lugar que você vá, haverá sempre um banheiro”. Ontem gargalhamos disso quando eu lhe perguntei meio que debochando (confesso!): “quem pode ficar bem estando sempre de piriri?” E comemoramos o fato de ela ter errado. Mas na época, para minha paciente ( a quem chamarei de N.) aquela sentença desastrosa soou como de morte, fim da esperança de ter novamente vida normal; causou-lhe imenso desespero na alma. Foi, então, que decidiu procurar uma psiquiatra indicada pelo gastroenterologista, convencida por ele do fator emocional envolvido nessa Síndrome. A psiquiatra, por sua vez,  tinha meu contato e a encaminhou para psicoterapia, avisando-a, sabiamente, de que só com remédios ela não se livraria do transtorno.

Começamos a psicoterapia em janeiro de 2009. Hoje, apenas um ano e um mês depois, ela entrou no consultório radiante, maquiada com bom gosto, com roupas joviais e elegantes, olhos brilhantes e um sorriso iluminado. Estava tão feliz!  Havia engordado uns quilinhos, o que era um “sonho” desejado nos últimos anos, depois de ter chegado a pesar 43 quilos (ela tem 1,60 de altura). Fazia quatro anos que só emagrecia, impedida de comer muitas coisas e de tanto se esvair em diarréias freqüentes. Peregrinou por consultórios e laboratórios, fez todo tipo de exames, alguns muito invasivos e dolorosos, quase tendo o intestino perfurado num exame de colonoscopia .   Até os médicos chegarem ao diagnóstico de Síndrome do Cólon Irritável ela viveu autêntica “via crucis”.

Agora, no entanto, tudo é passado. Ela está sem tomar o Lexapro e o Rovotril;  completamente livre dos medicamentos e dos sintomas desde dezembro passado. A psiquiatra também comemorou com ela o sucesso do tratamento. Relembramos momentos significantes da terapia, a elaboração de experiências dolorosas, o trabalho frente a traumas relembrados, a construção de novos paradigmas, enfim, da caminhada com empenho e dedicação no caminho da construção de uma nova pessoa, mais consciente de quem realmente é, dos próprios limites e de suas habilidades. Eu a fiz ver a importância do empenho dela, da coragem e força que a fizeram ter efetivamente entrado em terapia, para que obtivéssemos o sucesso alcançado. Claro que o adoecer teve função construtiva, como sempre ocorre, mas somente agora era possível rir de tudo, passada a dor, elaborados os temores e curadas as feridas (e o maldito piriri!) Em breve ela estará liberada também da terapia.

Pedi permissão a N.  para escrever neste blog, em linhas gerais e sem identificá-la, sobre o caso dela para que outras pessoas hoje com Síndrome do Cólon Irritável não se desesperem: tem cura! Ela adorou a idéia e disse que se ela própria não tivesse fugido da terapia por tanto tempo, teria sofrido bem menos. Também foi importante o trabalho eficiente da psiquiatra, que prescreveu os remédios certos e foi também ponto de apoio confiável.

Entre as causas psicogências do transtorno estão experiências traumáticas reprimidas, incapacidade de se colocar, de fazer valer a própria vontade, em expressar-se de modo autêntico; em Gestalt-terapia chama-se isso  de “engolir sem mastigar” muitas coisas. Do ponto de vista da Psicologia Analítica, envolve complexos constelados e viver “tomada por uma persona”, entre outros aspectos que vou abster-me de detalhar em respeito ao sigilo profissional e anonimato da minha paciente.

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