Tarso, um substantivo próprio que dá nome a um personagem da novela da Globo Caminho das Índias, está sendo usado como adjetivo. As pessoas, de modo particular os adolescentes, usam-no para dizer que alguém é louco ou que tem surtos. Nem sei se as pessoas sabem ao certo o que são surtos, mas é uma expressão já do senso comum. Fui pesquisar sobre o assunto e encontrei o blog do ator que vive o personagem, o Bruno Gagliasso. Lá, no blog, encontrei um texto explicativo sobre essa psicopatologia, da psiquiatra Patrícia Schmidt. Que, segundo Bruno Galiasso, foi usado na  oficina de atores para selecionar o elenco de apoio, ainda antes da novela começar.

“Nesse pequeno texto tentarei falar sobre esquizofrenia de uma forma bem diferente das usuais explicações científicas. Antes de tudo esquizofrenia é doença e sofrimento. Depois de tudo é um fascinante universo. É hoje encarada não como uma doença única, mas sim como um grupo de patologias. Não escolhe classes sociais e grupos humanos. Só é possível entender o universo das esquizofrenias com muita empatia em relação às emoções e vivências do sujeito em sofrimento psicótico.

Imagine-se com aquela sensação de medo que surge quando paramos no sinal de madrugada, nas ruas do violento e lindo Rio de Janeiro. Agora siga imaginando-se com essa sensação durante todos os minutos do seu dia. Imagine-se com aquela vergonha que sentimos quando somos flagrados, por exemplo, com o dente sujo naquela importante leitura de texto logo após o almoço. Agora siga imaginando-se com essa sensação a todo momento, com a certeza de que as pessoas o observam, podem ver tudo o que você faz e monitoram todos os seus atos. Imagine-se ouvindo alguém chamar o seu nome, olhando em volta e não vendo ninguém como acontece conosco de vez em quando. Siga imaginado que você continuará ouvindo vozes, todo dia, hora e minuto e que você não sabe de onde elas vêm. Agora imagine-se naquele evento chato pensando no quanto você gostaria de estar em casa, debaixo das cobertas e não ali aturando o nada inteligente e piadista sem graça do diretor da sua companhia teatral. Agora imagine acreditar que todos os demais, inclusive seu diretor, podem ler seus pensamentos!

Essas sensações de nosso dia a dia, vividas numa intensidade muito maior, são algumas das sensações experenciadas pelo sujeito que sofre com a doença mental chamada esquizofrenia. A doença se caracteriza classicamente por uma coleção de sintomas, tais como alterações do pensamento, alucinações (auditivas, visuais, olfativas, mais raramente e outras) delírios, perda de contato com a realidade, podendo causar uma quebra radical do laço social. A sua prevalência atinge 1% da população mundial, manifestando-se habitualmente entre os 15 e os 25 anos, nos homens e nas mulheres, podendo igualmente ocorrer na infância ou na meia-idade.

As esquizofrenias têm tratamento e o sujeito pode se recuperar, muito embora cura no sentido estrito da medicina ainda não seja possível. Temos o controle da doença e o tratamento  visa empoderar o sujeito psicótico para que ele possa lidar melhor com seus sintomas. Medicação, psicoterapia, oficinas terapêuticas, projetos de trabalho e geração de renda, música, arte e lazer são alguns dos elementos que se preconiza hoje para o atendimento das pessoas com esquizofrenia. Desde a década de 80, o Brasil realiza a Reforma Psiquiátrica que nega a exclusão determinada pelos hospícios e propõe o tratamento dos doentes mentais na comunidade, através dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Desejamos além de proporcionar um tratamento intensivo e de qualidade, fazer uma intervenção na cultura, para que um dia possamos enfraquecer o ainda forte estigma contra o doente mental.

Como diz um amigo artista e psiquiatra – Lula Vanderlei – parafraseando Caetano Veloso, se de perto ninguém é normal, de perto ninguém também é louco todo dia. O louco pode ficar dentro da aceita normalidade. Pode trabalhar, casar, namorar, dançar, cantar. Muitos loucos são artistas e grandes artistas. Em tratamento, a crise aguda psicótica tende a ser melhor manejada e a remitir mais rapidamente.  Cada caso é um caso, mas todo psicótico é um cidadão e tem os mesmos direitos e deveres de todos nós.

Para finalizar, esquizofrenia é doença mental, sofrimento, esfacelamento, recuperação, encanto e fascínio. Cabe superarmos nossos preconceitos e assim garantir ao louco a chance de mostrar suas potencialidades e ocupar o seu lugar na sociedade.” Patrícia Schmid – Psiquiatra

Esquizofrenia é um tipo de psicose, nome científico da “loucura”. Aprendemos na faculdade uma analogia para diferenciar psicose de neurose. Imagine alguém que sai de casa e quando volta encontra a casa fechada. Esse alguém fica do lado de fora. Agora imagine alguém que sai de casa e quando volta encontra sua casa arrombada e com tudo que estava dentro quebrado. Isso é psicose. Na neurose a pessoa não perde o senso de realidade – sua conexão com o mudo não se quebra. Já na esquizofrenia, esse elo está quebrado e ele vive como se estivesse em outro mundo. Outra bela analogia que aprendi: a neurose é como um vaso trincado. A psicose é como um vaso que caiu, esfacelou-se e o dono tenta montar os pedaços. Pode até conseguir, mas um ou outro pedacinho voou pra longe e não é encontrado ou mesmo que ache todas as partes que se partiram, sempre haverá o vinco da “cola” onde foi remendado. Trabalhei numa clínica para pessoas com transtornos mentais e lá havia um homem de alta estatura, forte e de voz gutural que às vezes entrava no salão gritando: “Eles estão querendo chupar o meu cérrebro!” No mprimeiro contato isso soava como algo assustador. Com o tempo, nos acostumávamos com essa e outras manifestações semelhantes e passávamos a ouvir coisas assim apenas como mais uma das diferentes manifestações do ser humano dentro de suas singularidades. Conviver com os chamados loucos tem algo de mágico. É uma experiência semelhante a um portal que abre nossa mente para outros “mundos”, outras formas de estar no mundo, alternativa diferente de existência. É fascinante, acreditem, mas exige que você esteja muito “centrado”, emocionalmente equilibrado, e que esteja aberto para livrar-se de preconceitos.

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